Para onde vai o Teflon que desaparece das panelas?

Para onde vai o Teflon que desaparece das panelas?

Em artigo recente apresentei dados científicos sobre os riscos associados ao preparo de alimentos em panelas de alumínio. Após sua publicação, diversos leitores perguntaram sobre outro utensílio amplamente utilizado nas cozinhas modernas: as panelas antiaderentes revestidas com Teflon®. Afinal, elas são seguras?

Você provavelmente possui uma dessas panelas em casa e já observou que, com o passar dos anos, o revestimento antiaderente sofre desgaste. Em muitos casos, a superfície metálica fica parcialmente exposta. Surge então uma pergunta inevitável: para onde vai o material que desapareceu? Será que ele pode parar nos alimentos?

O revestimento antiaderente é formado principalmente por um polímero chamado poli(tetrafluoroetileno) (PTFE), conhecido comercialmente como Teflon®. Descoberto em 1938 e utilizado em panelas desde a década de 1950, o PTFE tornou-se popular devido à sua elevada resistência química e às suas propriedades antiaderentes. Durante décadas foi considerado um material praticamente inerte, sendo empregado não apenas em utensílios domésticos, mas também em enxertos vasculares, cateteres, membranas cirúrgicas e diversos equipamentos industriais.

Parte da preocupação pública com o Teflon surgiu devido ao ácido perfluorooctanoico (PFOA), substância utilizada durante muitos anos como auxiliar de processamento na fabricação do PTFE. Embora o PFOA não faça parte da estrutura química do revestimento, sua produção esteve associada a um importante caso de contaminação ambiental nos Estados Unidos, envolvendo a empresa DuPont. Estudos epidemiológicos realizados com populações expostas encontraram associações entre o PFOA e diversas doenças graves, levando à eliminação progressiva dessa substância dos processos industriais.

A preocupação com os compostos fluorados, entretanto, vai além do PFOA. Atualmente, as substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas (PFAS) são apontadas como um importante desafio ambiental e sanitário devido à sua persistência no ambiente e aos possíveis efeitos sobre a saúde humana.

Nesse contexto, surgiu uma nova preocupação. Em vez de investigar apenas os compostos utilizados na fabricação do PTFE, pesquisadores passaram a estudar os possíveis efeitos das micro e nanopartículas liberadas pelo desgaste dos revestimentos antiaderentes em utensílios domésticos.

Em um estudo publicado em 2025 no periódico Journal of Hazardous Materials, cientistas observaram que nanopartículas de PTFE foram capazes de penetrar em células intestinais humanas cultivadas em laboratório, provocando estresse oxidativo, inflamação, danos mitocondriais e lesões no DNA. Os efeitos foram mais intensos para partículas menores. Os autores concluíram que essas partículas não devem mais ser consideradas completamente inertes do ponto de vista biológico. 

Outra contribuição importante veio de uma revisão publicada em 2026 na revista Environmental Chemistry Letters. Os autores reuniram resultados de dezenas de estudos e concluíram que panelas antiaderentes podem liberar milhares a milhões de micro e nanopartículas durante o uso, especialmente quando envelhecidas, riscadas ou submetidas a altas temperaturas. A revisão também relatou a presença dessas partículas em águas, sedimentos, peixes, moluscos e até tecidos humanos.

Contudo, é importante interpretar esses resultados com cautela. Os estudos demonstram que partículas de PTFE possuem potencial toxicológico em sistemas experimentais, mas ainda não existem evidências epidemiológicas robustas demonstrando que o uso normal de panelas antiaderentes cause doenças em seres humanos. Em outras palavras, os pesquisadores identificaram um possível perigo biológico, mas o risco real para a população ainda não foi estabelecido.

Embora ainda inexistam evidências de que panelas antiaderentes causem doenças em seus usuários, recomenda-se evitar o superaquecimento, substituir utensílios com revestimento severamente desgastado e utilizar colheres ou espátulas de madeira ou silicone para reduzir a abrasão da superfície. O tema continua em investigação científica, mas uma conclusão já parece clara: o material que se desprende do revestimento antiaderente da panela não desaparece do ambiente. 

Para saber mais: YUN, H. et al. J. Hazard. Mater., 499, 140255 (2025) ; MARCOS, R. et al. Environ. Chem. Lett., 24, 27–59 (2026).


Luiz Cláudio de Almeida Barbosa 
Professor titular de Química da Universidade Federal de Minas Gerais
12 de junho de 2026