COLUNA | NOITE PATROCINADA
Divisória morro acima entre o perímetro urbano e o terreno da “Escola”, a Rua Seca - hoje Bairro Bela Vista - sempre me assemelhou a uma coluna vertebral em que as vértebras só aparecem em um lado. À direita, para quem olha da cidade para o alto; à esquerda, para quem olha do alto a cidade lá embaixo.
Rua Seca que me viu, em 1945, o primeiro - e certamente único - verdureiro de sua história. A subir sua íngreme escalada com o balaio de verduras às costas. Rua Seca onde reinavam os “paperpin” - “pa”, de Patrocínio; “per”, de Pergentino; “pin”, de Pintinho. Rua Seca onde arrisquei os primeiros passos ao som da sanfona.
Casamento da filha do Patrocínio. Tudo em casa. Casamento civil. Casamento religioso. Jantar para os convidados. Baile até a meia-noite. Nesta ordem. Esta é a ordem. Depois dormir. Com Deus...
Casamento civil antes de o sol entrar. Casamento religioso logo após. Por aí... O Padre chega antes um pouco da hora; o Juiz de Paz se atrasa. Antes da hora não é hora. Depois da hora não é hora. Hora é na hora! Mas eles não são recrutas. São autoridades.
O sol declina no horizonte. O Padre tem outros compromissos. Volta depois. O Juiz de Paz ainda pega os últimos raios de sol. Lá no alto da Rua Seca. Casados segundo a lei civil, implantada pela República. Mas o que vale é o casamento religioso. O do Padre...
O Padre certamente estava atendendo a outros casamentos. Porque era sábado. A noite encobre a cidade. Mesa posta para o jantar. Pode-se casar com a barriga cheia?! Olha esse tipo de pergunta!... As barrigas vazias respondem que pode. Dá tempo de o Padre chegar. Sobra frango para ele...
O sino da Escola Normal bate 21 horas. Cadê o Padre? O jeito é começar o baile. Para adiantar... Quando o Padre chegar, cesse tudo o que a antiga musa canta. Depois começa de novo. Até a meia-noite. Depois dormir. Com Deus...
As horas passam rápido. Aproxima-se a meia-noite e, ao invés do Padre, chega o seu recado. Não deu. Isso não é hora de Padre subir a Rua Seca. O casamento fica para amanhã cedo. Vão dormir!
Outro valor mais alto se alevanta. Patrocínio manda soltar os foguetes. Diz para o sanfoneiro continuar tocando até o dia clarear. E a ordem que Viçosa jamais esqueceu:
- Esta noite aqui em casa ninguém drume!...
Publicado na edição de 2.115 de 11/09/2009


