As tamareiras não têm pressa

Reflexões para jovens docentes

Jun 26, 2026 - 16:34
Jul 7, 2026 - 11:29
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As tamareiras não têm pressa

Em outra oportunidade, escrevi sobre a ansiedade que ronda os jovens estudantes de doutorado e toda a incerteza que o futuro lhes reserva. Pois bem, nesse mundo que avança de forma galopante, pressionados cada vez mais pela competição que travam consigo mesmos ao comparar seu desempenho com o de muitos de seus pares por meio das redes sociais, essa ansiedade se prolonga mesmo após o início da carreira acadêmica. 

Em conversa recente com um jovem acadêmico, eu compartilhava alguns dos trabalhos que tenho feito, trocando ideias e submetendo-os ao seu crivo rigoroso. Para minha surpresa, enquanto eu falava empolgado sobre meus projetos, parecia que em certos momentos ele prestava atenção e ficava vidrado ouvindo as histórias, mas de repente percebi uma certa nuvem de tristeza pairando sobre seu semblante.

Ao questionar o que se passava, ele então desabafou: “Eu queria ser tão produtivo quanto você, mas me sinto incompetente por não conseguir realizar coisas tão interessantes”. Naquele momento, senti que talvez minha empolgação excessiva – se é que empolgação pode assim ser classificada – tenha lhe causado desconforto. Mas percebi que aquele desconforto nascia de uma armadilha comum em nossos tempos: a tendência de comparar trajetórias que se encontram em momentos muito diferentes de maturação. 

Como diz o Eclesiastes: “tem o tempo para plantar, e tem o tempo para colher.” O professor universitário é hoje cobrado de forma desumana, sendo submetido a todos os tipos de comparação por métricas que nem de perto conseguem captar o verdadeiro valor da profissão. Isso causa ansiedade nos jovens docentes, que, em muitos casos, terminam nos consultórios de psicólogos e psiquiatras, duvidando da própria competência e da capacidade de conduzir bem sua missão.
Refleti com esse jovem, muito competente em sua área, que eu estava em um momento muito diferente do dele na carreira. Após muitos anos na academia, percebo que cada carreira tem seu próprio percurso. O jovem é como uma semente, e para germinar passa por um processo natural que demanda paciência e tempo. Algumas árvores têm sementes dormentes, que podem levar muito tempo para germinar, e mesmo sementes de uma mesma árvore não brotam todas de forma igual. A tamareira (Phoenix dactylifera), uma das palmeiras mais antigas cultivadas pelo ser humano, apresenta grande variabilidade na germinação. Enquanto algumas sementes brotam rapidamente, outras, especialmente quando mais antigas ou em dormência, podem levar meses ou até anos.

Nativa da região do Oriente Médio e do Norte da África, especialmente em áreas desérticas e semiáridas, seu cultivo remonta a pelo menos 5.000 anos, com registros arqueológicos na Mesopotâmia e no Egito antigo. Com paciência, ela germina e cresce, produzindo frutos doces e nutritivos que há séculos alimentam muitos povos. 

Assim como a tamareira, cada jovem docente-pesquisador tem seu próprio ritmo e seu próprio tempo. Cada carreira acadêmica é única, com seu ciclo particular de germinação, crescimento e frutificação. Por isso, o jovem docente não precisa ter pressa nem se comparar com os demais. O valor do trabalho acadêmico não está na rapidez com que os resultados aparecem, mas na sua capacidade de transformar vidas, formar pessoas e produzir conhecimento duradouro.

Em uma época obcecada por métricas, rankings e produtividade instantânea, vale lembrar que as obras mais importantes exigem tempo. O conhecimento amadurece lentamente, assim como as árvores que produzem os melhores frutos. A pressa produz números; a maturidade produz legado.

Luiz Claudio de Almeida Barbosa
Professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais
Belo Horizonte, 7 de julho de 2026