COLUNA | Quando a adversidade molda o pensamento científico

Jul 14, 2026 - 08:38
Jul 14, 2026 - 08:40
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A ciência oferece inúmeros exemplos de que a deficiência não impede a produção de conhecimento. Em um mundo que ainda busca tornar-se plenamente acessível, estima-se que mais de um bilhão de pessoas vivam com algum tipo de deficiência — cerca de 15% da população global, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que milhões convivem com limitações que afetam a mobilidade, a visão, a audição ou a cognição. Mais do que números, essa realidade revela um desafio coletivo: construir uma sociedade que reconheça não apenas limitações, mas também potencialidades. As trajetórias de diversos cientistas mostram que, quando encontram oportunidades adequadas, pessoas com deficiência podem oferecer contribuições extraordinárias ao avanço do conhecimento e inspirar uma sociedade mais inclusiva.

A história da ciência costuma destacar descobertas e nomes consagrados, mas raramente chama atenção para as circunstâncias em que muitos desses cientistas realizaram seu trabalho. Limitações físicas ou sensoriais não impediram sua produção intelectual e, em alguns casos, influenciaram sua maneira de observar problemas e construir soluções.

Um dos casos mais emblemáticos na química é o de John W. Cornforth (1917–2013). Acometido por surdez quase total ainda jovem, construiu uma carreira brilhante na interface entre química orgânica e bioquímica. Sua contribuição à biossíntese de esteroides e terpenos, com ênfase na estereoquímica, lhe rendeu o prêmio Nobel de Química em 1975. Cornforth desenvolveu formas próprias de comunicação científica e um estilo de trabalho altamente concentrado, baseado na visualização estrutural.

Outro exemplo relevante é o de Joseph Priestley (1733–1804). Conhecido por seus estudos sobre os “ares” e pela identificação do que chamou de “ar desflogisticado” (posteriormente reconhecido como oxigênio), Priestley apresentava gagueira desde jovem. Como também atuava como ministro religioso, essa limitação representou um desafio em sua atividade como pregador. Embora não incapacitante nos moldes modernos, a dificuldade de fala não o impediu de construir uma notável trajetória intelectual. Destacou-se como autor prolífico nas áreas de teologia, filosofia e ciência, tendo desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento da química pneumática. Sua trajetória mostra que limitações pessoais não constituem, necessariamente, barreiras à produção científica e intelectual.

Casos semelhantes aparecem em outras áreas. O físico Stephen Hawking (1942–2018), professor da Universidade de Cambridge, mesmo convivendo com a esclerose lateral amiotrófica, produziu contribuições fundamentais para a cosmologia e para a física teórica, com o auxílio de tecnologias assistivas, apesar da progressiva perda da mobilidade e da fala. Além de sua produção científica, Hawking destacou-se como um dos maiores divulgadores da ciência de seu tempo. Seu livro Uma Breve História do Tempo vendeu mais de 10 milhões de exemplares em cerca de quarenta idiomas, tornando-se uma das obras de divulgação científica mais influentes do século XX.

Quando jovem, na década de 1970, tive um excelente professor que era praticamente cego. Apesar da deficiência, suas aulas estavam entre as mais inspiradoras que tive. Hoje, como professor, convivo com estudantes com deficiências diversas, e percebo, na prática, que isso não os torna menos capazes. Essa experiência reforça uma convicção: a limitação não define o potencial — mas o ambiente pode ampliá-lo ou restringi-lo.

Esses exemplos evidenciam um ponto essencial: a prática científica não é homogênea. Ela se adapta às condições de quem a realiza. Limitações não impedem, necessariamente, a produção de conhecimento; podem, inclusive, levar ao desenvolvimento de formas particulares de percepção e raciocínio.

Para que a inclusão seja efetiva, cabe a todos — em especial aos professores — acolher essas diferenças e criar condições para que se convertam em potência. É assim que novos talentos científicos poderão surgir e deixar seu legado. 

Ao reconhecer essas trajetórias, ampliamos nossa compreensão da ciência e do potencial humano. Mais do que biografias extraordinárias, esses casos nos convidam a refletir sobre a importância de uma sociedade mais inclusiva — uma sociedade capaz de criar condições para que diferentes formas de inteligência e sensibilidade floresçam.

Luiz Claudio de Almeida Barbosa Luiz Cláudio de Almeida Barbosa é professor titular de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do CNPq. Natural de Além Paraíba (MG), iniciou sua carreira docente na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde atuou por quase três décadas, implantando a linha de pesquisa em Síntese Orgânica e coordenando a criação do doutorado em Agroquímica. Desde 2012 integra o corpo docente da UFMG, onde também exerceu a chefia do Departamento de Química. É graduado e mestre pela UFV e doutor (Ph.D.) pela Universidade de Reading, na Inglaterra, tendo realizado estágio de pós-doutoramento na Universidade de Oxford. Desenvolve pesquisas nas áreas de síntese orgânica, produtos naturais e química medicinal, com mais de 300 artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais. Orientou mais de 250 estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Autor de livros amplamente utilizados no ensino superior, como Introdução à Química Orgânica e Espectroscopia no Infravermelho na Caracterização de Compostos Orgânicos, também publicou obras de divulgação científica, entre elas Nitrogênio – O Sétimo Elemento e Ciência e Liberdade: a Busca pelo Conhecimento da Natureza no Brasil à Época de Nossa Independência. Membro da Sociedade Brasileira de Química, da Royal Society of Chemistry (Reino Unido) e da IUPAC, dedica-se também à divulgação científica por meio de artigos em jornais e de um canal no YouTube, no qual aborda temas relacionados à química, à história da ciência e à cultura científica.