Abril Azul: entre o diagnóstico e a escuta da singularidade nos autismos

Em meio à proliferação de informações e condutas padronizadas, o artigo propõe questionar o lugar do diagnóstico e defender uma abordagem que valorize a singularidade e o contexto de cada criança

Abril Azul: entre o diagnóstico e a escuta da singularidade nos autismos

O mês de abril é dedicado ao movimento de inclusão e à disseminação de saberes sobre os autismos: o Abril Azul.

Atualmente, circula uma grande quantidade de informações sobre as características do autismo, assim como propostas, muitas vezes categóricas, de manejo desses sujeitos — ou, em outras palavras, “melhores” formas de condução que visam à sua adaptação ao sistema vigente. Diante disso, é fundamental questionarmos não apenas o processo diagnóstico, mas também as intervenções que dele decorrem.

O diagnóstico de autismo exige uma avaliação clínica minuciosa, realizada por profissionais especializados, que vá além de um simples checklist dos manuais diagnósticos. Uma escuta clínica qualificada inclui os saberes da família e dos profissionais que acompanham a criança em seu cotidiano. Reduzir comportamentos a métricas quantificáveis é, em alguma medida, silenciar a singularidade do sujeito. Cabe, portanto, aos profissionais acolher o sofrimento de quem procura ajuda — frequentemente as mães — e reconhecer a criança como um sujeito único, dotado de desejos e modos próprios de existir.

Não me deterei, aqui, na descrição dos comportamentos observáveis do autismo, uma vez que essas informações já são amplamente difundidas. Basta observar a frequência com que famílias chegam aos consultórios trazendo hipóteses diagnósticas já nomeadas e, por vezes, classificadas.

Proponho, então, uma reflexão sobre o lugar desse diagnóstico na vida das crianças. A quem serve essa nomeação? O que sustentam as práticas de adaptação social? É inegável que um diagnóstico bem conduzido, que considera o contexto amplo da criança, pode trazer benefícios importantes. No entanto, é preciso cuidado para que ele não se reduza a um rótulo que empobreça a compreensão do sujeito.

Todo processo terapêutico parte do reconhecimento de um sofrimento que pode, inclusive, paralisar o sujeito. No caso do autismo, muitas vezes são os familiares — envolvidos diretamente no cuidado — que primeiro percebem que algo no desenvolvimento da criança não segue o esperado. Uma puericultura sensível não se restringe ao acompanhamento biológico, mas inclui as angústias dos cuidadores, os saberes familiares e o ambiente emocional em que a criança se desenvolve.

A saúde mental se constitui desde o início da vida, sustentada pelas relações que a criança estabelece com seus cuidadores. Investir em um acolhimento integral nesse período é uma potente estratégia de prevenção e promoção de saúde mental. Intervir precocemente, considerando a neuroplasticidade cerebral, é favorecer trajetórias mais possíveis e singulares, em diálogo com a realidade de cada criança.

Como psicóloga infantil atuante em Intervenção Precoce, acompanhando bebês com entraves no desenvolvimento — especialmente no campo relacional —, proponho que possamos voltar nosso olhar para os primórdios da vida como uma aposta ética e clínica. Trabalhar com o autismo é, necessariamente, trabalhar com redes: familiares, institucionais e sociais. E, nesse percurso, é importante reconhecer que há sofrimento implicado em todos esses níveis.

Que o Abril Azul possa ser pensado não como uma cor única, mas como um espectro de possibilidades — aberto, diverso e sensível àquilo que, muitas vezes, escapa às nomeações.

                                          Carolina Albuquerque
Psicóloga Infantil – Vila Pupilo, Viçosa/MG
Psicóloga pela UFMG; Membro da La Cause des Bébés (Paris)
          Instagram: @psicarolalbuquerque
Contato: 31 99161-8667