COLUNA | A química no Reino de Midas: quando o resíduo vira riqueza
A lenda do rei Midas é bem conhecida: ele desejou que tudo o que tocasse se transformasse em ouro. Segundo a versão mais famosa, o deus Dioniso concedeu-lhe esse poder. No início, Midas ficou maravilhado ao tocar em pedras e objetos sem valor e vê-los converter-se em ouro. Mas logo descobriu o lado trágico do desejo: alimentos e até sua filha transformaram-se em ouro ao simples contato com suas mãos. A história é uma lenda. Mas será que a ciência consegue fazer algo parecido: transformar um material sem valor em outro de grande valor? Esse foi um dos sonhos dos alquimistas! A resposta é sim — e uma das responsáveis por esse “milagre” é a química.
Pensemos nos peixes. Quando eu era jovem e saía para pescar, ao voltar para casa a primeira tarefa era limpar os peixes e retirar as escamas e a pele, que iam diretamente para o lixo. O mesmo acontece ainda hoje quando compramos um peixe inteiro. Hoje sabemos que aquilo que descartávamos contém moléculas de grande interesse. Um exemplo é o colágeno, proteína estrutural encontrada na pele, nos ossos e nas escamas dos peixes. Depois de extraído e, em alguns casos, hidrolisado em peptídeos menores, pode ser empregado em alimentos e suplementos, cosméticos e materiais biomédicos. Assim, um material que antes seria descartado pode transformar-se em matéria-prima de alto valor agregado.
O caso brasileiro é particularmente interessante. A tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus), peixe de água doce originário da África, tornou-se a principal espécie da piscicultura nacional. Em 2025, o Brasil produziu em torno de 707 mil toneladas de tilápia, cerca de 70% de todos os peixes cultivados no país. Minas Gerais respondeu por aproximadamente 10% dessa produção. Essa produção gera uma enorme quantidade de resíduos, e pesquisas realizadas em nosso país vêm mostrando como parte desse material pode ser transformada em produtos de maior valor.
A transformação desses resíduos em colágeno não é uma espécie de alquimia. O colágeno já está presente no peixe; o trabalho da química é separá-lo dos demais componentes, purificá-lo e, quando desejado, modificar o tamanho de suas moléculas. Na extração, podem ser empregados tratamentos alcalinos e ácidos e, em determinadas etapas, enzimas como a pepsina. Se o objetivo for produzir peptídeos de colágeno, uma hidrólise enzimática quebra as ligações peptídicas, transformando as grandes moléculas de proteína em fragmentos menores.
Pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá, liderados por Denise Uchida, publicaram, em 2025, um estudo sobre a extração de colágeno da pele de tilápia. Os métodos avaliados produziram rendimentos próximos de 10% e preservaram a estrutura do colágeno tipo I, indicando seu potencial para aplicações farmacêuticas e biomédicas.
Em 2026, a pesquisadora Maria Cléa de Figueiredo, da Embrapa Agroindústria Tropical, no Ceará, e colaboradores deram um passo além: avaliaram não apenas a extração de colágeno da pele de tilápia, mas também a possibilidade de levar o processo a uma escala maior, considerando custos e impactos ambientais. A rota de extração ácida mostrou-se mais promissora que a que utiliza pepsina, mas o estudo revelou que água, reagentes, energia e etapas de purificação podem tornar o processo caro e ambientalmente impactante. Os pesquisadores propuseram modificações capazes de reduzir custos e impactos, mostrando que o desafio não é apenas extrair o colágeno, mas desenvolver um processo industrial economicamente viável e ambientalmente responsável.
Esses trabalhos mostram a importância da ciência brasileira. Nossos pesquisadores não estão apenas estudando moléculas em laboratório: estão procurando soluções para problemas concretos da indústria nacional, transformando resíduos de diferentes cadeias produtivas em produtos de maior valor e buscando processos mais sustentáveis. Talvez esse seja o verdadeiro toque de Midas da química: descobrir valor onde antes víamos apenas descarte.
Saiba mais: Uchida, D. T. et al. ACS Omega 2025, 10, 35809–35826

