COLUNA | O amigo da onça

Adote um pet e terá um amigo fiel com quem contar

COLUNA | O amigo da onça

O pessoal do desde o ano que eu nasci até algum tempinho antes do ocaso do milênio passado conheceu um cartoon que se popularizou nas páginas da revista “O Cruzeiro”, que circulou até 1975: era “o amigo da onça”.

Para os menos anosos, explicito: o personagem, criado pelo pernambucano Péricles de Andrade Maranhão, constantemente colocava os amigos em situação constrangedora, em diferentes ambientes e encontros sociais.

Antes do personagem, o chamado amigo da onça, na sabedoria popular, significava uma pessoa que apenas finge ser amiga, porque na verdade não é, sendo apenas um amigo por interesse, falso e traiçoeiro... a maioria das pessoas tem, teve ou conhece pelo menos um que tem.

Nem o Péricles nem os sabedores populares conhecem a minha história com a Brigitte. Como eu gostava da Brigitte... na sua forma de gostar, a Brigitte também gostava de mim. Nossas brincadeiras eram um tanto quanto selvagens e, de vez em quando, eu saia com alguma arranhadela (arranhado + dela).

Eu morava em Belo Horizonte, mais precisamente na rua Turfa, no bairro Prado. Era tempo em que Jânio Quadros candidatava a Presidente da República, abanando uma vassoura e falando que ia “varrer” a corrupção. O homem acabou ganhando com a maior votação até então obtida no Brasil e, sete meses depois, renunciou, dizendo que foi destronado por “forças ocultas”. Eu acho que foi a corrupção que o vassorou. Só dessa eleição para cá, já se passaram 66 anos... vai contando aí!

Bom, fora os arranhões, a minha convivência com a Brigitte era sempre pacífica. Depois das refeições, ficávamos horas deitados na grama apreciando o nada. As vezes adormecíamos. Isso de dia. À noite, cada qual ia para o seu canto, porque a família não permitia certas confianças, ou melhor, a Brigitte poderia ser sonâmbula e eu levar a pior.

Como eram fagueiras as nossas tardes. Saíamos para passear no quarteirão e todos invejavam a nossa parceria.

Às vezes, algumas meninas se aproximavam, mas sempre mantinham uma certa distância... Brigitte não aceitava certas intimidades... queria o amigo só para ela. O engraçado é que ela dava confiança para os meninos e eu não ligava.

Brigitte não gostava de cachorros. Coisas da ancestralidade. Uma exceção era a Raposa, a cachorrinha que era mascote da meninada do bairro que jogava bola num campinho na esquina da rua Esmeralda. Quando Raposa teve filhotinhos, Brigitte chegou até a brincar com eles. Isso sob nossos olhares atentos da turma. Vai que o instinto se manifestasse...

Algum tempo depois, tivemos que nos separar. Belo Horizonte cansou-se de mim. Eu era muito moleque! Antes de partir, dei um abraço na Brigite enquanto lembrava o quanto fiquei feliz no dia em que ela chegou, presa em uma coleira e já daquele tamanho. Nunca soube a idade dela. Alguém deixou a pequena jaguatirica para tratamento no consultório do veterinário que me adotara (e a adotara também) e não voltou para buscá-la. Fui então escolhido para amigo da onça.

Retornei a Viçosa e Brigitte morreu de pneumonia (ou foi de saudade?) algum tempo depois.