COLUNA | Um professor

Luiz José Martins de Castro foi quase um autodidata. Não o foi totalmente porque a Dona Cota, mãe dele, ensinou-lhe o alfabeto e as primeiras palavras, bem como a noção de números, coisa que ele aprendeu a dominar com preciosa precisão. Foi assim, com seu quase autodidatismo, que ele passou a estender seus conhecimentos a outras pessoas.

Foi um professor ambulante, um verdadeiro mascate, um semeador.  Isso mesmo, sempre se transportava de um lugar para outro para semear seu saber. O que se pode notar é que a colheita foi farta. Ainda hoje, encontramos alguns de seus alunos, que falam com especial deferência do antigo mestre.

Sabia muitas histórias, que anos mais tardes eu iria descobrir se tratar dos contos maravilhosos dos irmãos Grimm, Charles Perrault e outros mais. Assim como ouvia e lia, ele repassava. Um verdadeiro Griô que difundia os saberes e fazeres por intermédio do poder da palavra.

E foi assim atendendo em domicílio que, nos idos finais da década de quarenta, um dia ele chegou as terras do senhor Sebastião Rodrigues Cruz e de Dona Militina Ferreira Rodrigues (Dona Tina), na Comunidade de Arrudas, Zona Rural de Viçosa. Lá lecionou para algumas crianças, inclusive para o filho dos donos da casa, Sebastião Rodrigues Filho, conhecido como Tatão de Tina ou Tatão do Arrudas.

 Passados alguns anos, o professor alçou voo para outra dimensão. Partiu ainda jovem, com 46 anos. Filhos? Deixou 4. Joaquim, já falecido; Francisco de Castro, este passador da história; Vicente de Castro, também já falecido; e José de Castro, o Zé do pedal. Todos ainda bem crianças, inclusive o Zé, com apenas quatro meses de idade.

Anos depois, mais exatamente em 1971, na mesma comunidade de Arrudas, em terrenos do Tatão Rodrigues, o filho, foi plantada a Escola Combinada Doutor Juscelino Kubitschek. Para lá e para o futuro foram encaminhadas as primeiras crianças da redondeza, com um espaço fixo e professora fixa: Maria Nazareth Fialho Rodrigues.

Do Arrudas, depois, a escola foi transferida para a Barrinha, nos fundos da Igreja São Judas Tadeu, de onde ocupou seu espaço atual e definitivo, um pouco mais adiante, na tarde de um sábado, dia 20 de setembro de 2015, sempre com a mesma missão: ensinar. Meu pai deve estar orgulhoso. Espiando tudo daquela estreita fresta da janela da dimensão do infinito mistério.

Procurei uma foto dele para postar junto da de outros que escreveram o nome no caminho percorrido até que se chegasse a esta geração que ocupa o recinto da Escola Municipal Doutor Juscelino Kubitschek. Não encontrei. Ou melhor, não a tenho.

 - Existem muitos retratos sem memória...meu pai é uma memória sem retratos.