COLUNA | A química invisível do rejuvenescimento: mito ou verdade?

Um dos princípios mais centrais da alquimia chinesa era a busca do elixir da longa vida: encontrar uma substância capaz de manter a juventude por tempo indefinido. Desde os tempos dos alquimistas, a ciência se desenvolveu e a química também. Muitos séculos depois, a humanidade ainda não fez as pazes com o processo natural de envelhecimento. Os químicos são, de certa forma, herdeiros dessa antiga busca e continuam desenvolvendo produtos capazes de melhorar a aparência da pele. As mídias apresentam constantemente produtos que prometem fazer alguém parecer vários anos mais jovem. Entre os ingredientes mais conhecidos estão os alfa-hidroxiácidos (AHA), o ácido hialurônico e o colágeno. Mas o que a ciência diz sobre essas promessas? 

A indústria cosmética tem evoluído muito, mas tradições antigas já relatavam tratamentos destinados a deixar a pele mais macia e com aparência mais jovem. Uma conhecida tradição atribui à rainha Cleópatra (69–30 a.C.) o hábito de banhar-se em leite. O uso popular de produtos naturais, como o suco de limão, também se tornou uma prática de beleza. O leite contém ácido lático, um AHA; o limão, ácido cítrico; a maçã, e o ácido málico. Em determinadas concentrações, os AHA favorecem a descamação da camada mais superficial da pele, contribuindo para sua renovação e para a melhora de alguns sinais do fotoenvelhecimento.

Um dos pioneiros nos estudos dermatológicos com alfa-hidroxiácidos foi Eugene J. Van Scott, que investigou seus efeitos e contribuiu para seu uso em dermatologia e cosmética. Outros compostos passaram a ser empregados, como o ácido retinóico, derivado da vitamina A, utilizado no tratamento do fotoenvelhecimento.

Mas a aparência da pele não depende apenas da renovação de suas células. No interior da derme existe uma complexa rede de proteínas e outras moléculas que lhe confere resistência, firmeza e elasticidade, e o colágeno é seu principal componente. A elastina contribui para que a pele possa se deformar e retornar à sua forma original, enquanto o ácido hialurônico ajuda a reter água e participa da organização da matriz extracelular. Com o envelhecimento, a produção e a organização dessas estruturas se modificam, contribuindo para a perda gradual de firmeza e para o aparecimento de rugas. Por isso, o colágeno tornou-se um dos protagonistas da indústria da beleza. Mas será que ingerir essa proteína pode realmente melhorar a aparência da pele?

Uma pesquisa liderada pela brasileira Vivian Zague, publicada em 2025, procurou responder a essa pergunta. Participaram 85 mulheres entre 45 e 60 anos, que receberam diariamente 2,5 g de oligopeptídeos de colágeno ou placebo durante 84 dias. Ao final, o grupo que recebeu os peptídeos apresentou aumento de cerca de 8% na elasticidade e 12% na firmeza da pele, em relação ao início do estudo, com diferenças estatisticamente significativas em relação ao placebo. Na hidratação, não houve diferença em relação ao placebo.

No mesmo estudo, experimentos de laboratório com fibroblastos humanos — células da derme responsáveis, entre outras funções, pela produção de componentes da matriz extracelular — verificaram que os oligopeptídeos estimularam a produção de colágeno tipo I e influenciaram moléculas envolvidas na manutenção e degradação da matriz extracelular. Esses resultados ajudam a explicar, em nível molecular, os efeitos observados no estudo clínico.

É importante, porém, interpretar esses resultados corretamente. Eles não significam que o colágeno ingerido simplesmente chegue à pele e seja incorporado às suas fibras. Durante a digestão, o colágeno é quebrado em peptídeos e aminoácidos. O estudo sugere que alguns desses fragmentos podem exercer efeitos biológicos capazes de influenciar células e processos relacionados à matriz extracelular da pele.

Muitos séculos depois dos alquimistas, a química vem conseguindo, ainda que de forma parcial, desenvolver produtos capazes de contribuir para a melhoria de algumas características da pele e atenuar alguns sinais visíveis do envelhecimento. Essa busca ocorre hoje em laboratórios do mundo inteiro, e os cientistas brasileiros também vêm dando contribuições importantes. 

O elixir da juventude continua sendo uma fantasia, mas a química já consegue, em alguma medida, atenuar alguns dos sinais que o tempo deixa em nossa face.



Saiba mais: Zague, V. et al. Journal of Medicinal Food 2025, 28, 869–876.



Luiz Cláudio de Almeida Barbosa

Belo Horizonte, 20 de agosto de 2026

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