COLUNA | LOLA, CONTEMPLATIVA
Por certo, um dos frutos da vida contemplativa é a consciência de que estamos diante da misericórdia infinita do coração uno e trino, a Quem adoramos. Contudo, quem se coloca diante de Deus vivo, real e verdadeiramente presente em sua vida de Ressuscitado, para degustar e saborear intensamente esta interatividade segue o “GPS” de uma ascética que, para atingir a mística, admite e reconhece que só Deus é Deus em seus atributos infinitos.
Nós, seres humanos, somos permanentemente necessitados da Misericórdia do Senhor e salmodiamos dizendo: “Se levardes em conta as nossas faltas, Senhor, quem haveria de subsistir? ” (Sl 129 (130): “De profundis”). Sou testemunha ocular e auricular desta postura da Lola. Na elevação, tanto da Hóstia quanto do Cálice, durante a Consagração das Espécies, em todas as Missas que celebrei naquele quarto, com matiz de uma Capela, ouvi: “Perdão Jesus, perdão! ”.
Ressoava em minha vida aquela voz íntima a Jesus Eucarístico. Uma alma contemplativa, como a da Serva de Deus, Floripes Dornelas de Jesus, não omitiria jamais o aspecto suplicante em seu colóquio com Deus.
Nem é tanto fazer pedidos em seu próprio benefício, mas caridosamente em prol do próximo. Trata-se de uma prece confiante, pois sempre foi a sua recomendação: confiança no Senhor. Aqui nos vem à lembrança o pensamento: “Olhos que contemplaram o oceano não precisam temer a lagoa! ”. Dentre as lições que Lola nos deixou, talvez a maior delas seja a confiança no Senhor. Fazendo-nos salmodiar: “Minha alma confia no Senhor, mais que o vigia esperando pela aurora...” (Sl 129 (130): “De profundis”), ou ainda: “Quem confia no Senhor é como uma árvore plantada à beira do riacho: produz frutos o ano inteiro e está sempre verdejante” (Jr 17, 7s).
No itinerário da vida contemplativa, está sempre presente a reparação. Aliás, trata-se de um dos aspectos da devoção ao Sagrado Coração de Jesus: é o desagravo. Afinal, aparecendo a Santa Margarida Maria Alacoque, uma Monja da Ordem da Visitação de Santa Maria, Jesus lhe disse: “Eis o coração que tanto amou os homens e deles recebe tanta ingratidão e maldade” e mostrou-lhe o coração exposto, transpassado pela lança no alto da Cruz, envolto numa coroa de espinhos, encimado pelas labaredas como numa fornalha de amor, queimando os nossos pecados. A adoração é o ponto alto da contemplação.
No caso da Serva de Deus, Lola, deu-se de forma inusitada, uma vez que ela permanecia olhos fitos, coração e vida toda conectados com o Sacrário posto no altar em seu quarto, naquelas longas noites que para ela era tempo privilegiado para rezar... repetiu-me incontáveis vezes: “de 9 horas da noite até 5 horas da manhã, é o melhor horário para a oração, pois o silêncio era total”.
Desde as conversas nos corredores do Seminário de Mariana, em 1976, ouvindo o meu colega e primo da Serva de Deus, Padre Alvim Gonçalves Valério, falando-nos sobre ela, até às 22 horas de uma noite fria de 1999, precisamente, 8 de abril, quando na tela do celular, visualizei quatro letras identificando a origem da chamada: “Lola”.
Ainda no carro, regressando de sua residência, em companhia do Médico Cláudio Bomtempo, quando sua cuidadora me transmitiu a infausta notícia: Lola acaba de falecer. Foi neste espaço de 23 anos que Lola entrou de forma profunda em minha história. Que saudades daquela criatura de Deus! Sei que agora sua ajuda apostólica é muito maior.
Mesmo assim, o sentimento humano clama a perda de sua companhia física. Que falta me faz o retorno materializado em tantas palavras profundas e gestos eloquentes em minhas incontáveis idas a sua casa! Dor que se transforma em regozijo, cada vez que a fé nos põe diante de respostas traduzidas em graças conseguidas por ela junto de Deus.
Os devotos do Sagrado Coração de Jesus e, em especial, o Apostolado da Oração, ganharam uma fiel intercessora no Céu. Enquanto fisicamente entre nós, foi a incansável divulgadora desta devoção, cremos que, na presença do Altíssimo, esta missão ainda se torna mais eficaz e duradoura. Mesmo paraplégica e com tantas dores, ela sempre se interessou em retribuir com orações as visitas dos Sacerdotes.
Quantas vezes, solidário à dor de alguém, não hesitei em pegar o telefone e ligar para ela. Do outro lado da linha, uma voz serena perguntava: “quem é que está chamando? ”. Antes da conversa terminar, já estava seguro de suas orações.
A conclusão era sempre a mesma: O senhor me dá uma bênção? ”. Depois da bênção, ouvia- se um “Amém”, cheio de fé. Hoje continuo me servindo do mesmo mecanismo: paro, rezo, e rapidamente, está feita a conexão: Deus Pai lastes as maravilhas do Reino aos pequeninos, nós Vos agradecemos pelos tesouros de virtude e sabedoria que em vida concedestes a Vossa filha Floripes Dornelas de Jesus, Lola.
Nós Vos pedimos, pela força do Vosso Espírito, exaltai sua humildade, elevando Vossa fiel serva à honra dos altares. Concedei-nos a graça da oração e total confiança no Sagrado Coração de Vosso Filho, e na proteção materna de Maria, para que um maior número de pessoas possa tê-La como intercessora e modelo de vida cristã. Amém.
Falecendo aos 86 anos, milhares de pessoas acorreram ao seu velório, na Igreja Matriz de São Manoel, e seu túmulo continua sendo muitíssimo visitado no cemitério de Rio Pomba. Uma jornada com as feições da humildade cristã, sustentada por uma inabalável confiança no Sagrado Coração de Jesus, cujo resultado é o despertar de uma incontável multidão de quantos foram e ainda são, resgatados na fornalha ardente do Coração de Nosso Senhor.
Os minutos, horas, dias, meses, anos e décadas vividos em um verdadeiro Calvário de tantas dores, por conta da queda da jabuticabeira que a deixara paraplégica não foram capazes de vencer a candura daquele rosto que nos apresentou LOLA, CONTEMPLATIVA!
Coluna publicada na edição 3634 do jornal Folha da Mata - 30/07/2026. Se você quer ver com exclusividade, fique sempre de olho na banca mais próxima da sua região!

