O preço oculto da sorte: o impacto dos jogos de azar e das apostas
Por: Alan Ferreira de Freitas
Vivemos em uma sociedade que se apresenta como símbolo de liberdade, mas que, silenciosamente, nos aprisiona em novas formas de dependência. Dizem que somos os únicos responsáveis pelo nosso destino, contudo, os fios invisíveis do consumo, da comparação e da promessa de felicidade imediata nos conduzem na direção contrária.
Entre essas armadilhas modernas, cresce de forma alarmante o universo dos jogos de azar — das apostas esportivas aos jogos digitais conhecidos popularmente como “jogo do tigrinho”. A tecnologia, sempre presente em nossos bolsos, facilitou o acesso e expandiu esse tipo de vício. A regulamentação tornou a entrada mais fácil, a publicidade transformou o jogo em sinônimo de glamour e sucesso, e a mídia embalou o risco com a aparência de sonho.
O resultado é devastador: o prazer é imediato, mas as consequências são profundas e duradouras.
“O próximo jogo vai mudar minha vida”, pensa o apostador, reiniciando o ciclo vicioso. Quase ganhou. Quase foi ele o escolhido pela sorte. Mas nenhuma empresa de apostas foi criada para enriquecer jogadores; todas existem para lucrar com sua esperança.
E é justamente essa esperança que torna tudo tão cruel. Os jogos de azar não são vendidos como vício, mas como promessa — promessa de mudança de vida, de conquista rápida, de fuga das frustrações diárias. No entanto, o que entregam é endividamento, sofrimento emocional e vergonha. Afetam, sobretudo, os mais vulneráveis, aqueles que enxergam no “dinheiro fácil” sua última chance de ascensão.
A aposta não é apenas uma questão econômica; é um reflexo social e emocional. Ela revela o desespero de quem deseja retomar o controle da própria vida em uma sociedade que cobra, incessantemente, sucesso, prazer e felicidade.
O vício em jogos é, antes de tudo, o vício em esperança. E talvez o maior truque do azar seja esse: fazer-nos acreditar que a sorte é apenas questão de tempo, quando, na verdade, ela se transforma em cárcere.
Enquanto isso, muitos continuam girando a roleta, presos entre a ilusão da liberdade e a realidade dos próprios desejos.
Por: Alan Ferreira de Freitas
Professor de Empreendedorismo no Departamento de Administração e Contabilidade da Universidade Federal de Viçosa (UFV)
Contato: alanf.freitas@ufv.br



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