Você será o Sol e as estrelas brilharão ao seu redor

Reflexões de um professor sobre o tempo, a juventude e o magistério

Você será o Sol e as estrelas brilharão ao seu redor

A vida transcorre muito rapidamente. Esta é uma observação que já ouvi muitas vezes, e eu mesmo já a utilizei. A sensação de que a vida passa depressa intensifica-se quando ficamos mais velhos. Quando criança, as datas festivas, como o Natal, demoravam a chegar. Ficávamos ansiosos pelo Dia das Crianças, pelo Natal, pelas férias escolares. Com o passar do tempo, à medida que envelhecemos, o ano mal começa e já estamos celebrando o carnaval. Em seguida, chega a Páscoa e, num piscar de olhos, as férias escolares de meio de ano já estão terminando.

Em anos de eleição, o segundo semestre parece voar como os supersônicos, que também já ficaram no passado. Quando não é eleição, há a Copa do Mundo ou as Olimpíadas... E, quando nos damos conta, as vitrines das lojas já estão todas enfeitadas: brinquedos, presentes, alimentos importados — como se fossem melhores que os que ricamente produzimos aqui no Brasil. Enfim, em breve as esperanças de um novo ano irão se renovar, e o ciclo começará novamente, ainda mais veloz. Essa percepção da rapidez do tempo me leva também a refletir sobre minha trajetória como professor e sobre os jovens que hoje ficam sob minha responsabilidade em sala de aula.

Foi exatamente isso que me ocorreu recentemente, ao estar diante de uma turma de trinta estudantes realizando sua primeira prova na universidade. Era uma turma de calouros, com idade entre 17 e 19 anos. Jovens, como eu fui na década de 1970, há quase meio século. Confrontado com o silêncio da sala, olhando para esses jovens concentrados em sua tarefa, certamente preocupados e se preparando para o futuro de suas vidas profissionais, recordei-me do primeiro livro que li: O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. Isso foi em 1970!

No decorrer da história, o menino Zezé, personagem principal, ganha um cavalinho e, emocionado, abraça o tio Edmundo, que pega seu queixo e diz:
— Você vai longe, peralta. Não é à toa que você se chama José. Você será o sol, e as estrelas vão brilhar ao seu redor.

Essa lembrança veio à tona porque, quando ingressei no ginásio, um professor perguntou quem havia lido um livro. Com orgulho, levantei a mão e, com o consentimento dele, relatei sobre O Pé de Laranja Lima.  Lembro-me das críticas e das gargalhadas da turma quando o professor zombou de mim, dizendo que aquilo não poderia ser considerado um livro de verdade. Essa experiência me marcou profundamente, mas não me deixei abater pela crítica e sempre mantive meu gosto pela leitura.

Assim, tornei-me professor e, há quase meio século, tenho a alegria de compartilhar um pouco do que venho aprendendo com os jovens. Quando iniciei minha carreira docente, ainda muito jovem, tinha praticamente a idade de meus alunos, sendo até mesmo mais novo que alguns estudantes do noturno. Com o tempo, passei a ser o irmão mais velho; depois, já tinha idade para ser pai deles; hoje, posso ser avô de todos.

Ao longo dessas décadas, o mundo mudou profundamente. O ensino se ampliou, incluindo o superior, o que fez com que as turmas, que em minha época eram pequenas, hoje sejam enormes. Além disso, a transformação digital das últimas décadas permitiu a democratização das informações e o aumento das competições, acelerando tudo e causando ansiedade nos jovens.

Tenho vários ex-alunos que hoje são professores universitários e me surpreendo quando dizem que os jovens de hoje não são como os do passado. Frequentemente afirmam: “Na minha época, nós éramos assim, assado...”. Sendo mais velho que eles, com o respeito e a estima que nutro por todos, me ponho a discordar. É claro que a juventude de hoje não é como a do passado, pois o mundo em que nasceram é muito diferente daquele de minha juventude. A comunicação é rápida, as informações estão disponíveis a um toque em uma pequena tela. Eles nasceram em um mundo acelerado. Eles são e devem ser diferentes. 

Reconheço que sou um pouco saudosista dos tempos em que a vida era mais tranquila, passava lentamente e com menos cobranças. No entanto, também percebo que essa nova geração tem as vantagens da tecnologia da informação disponível, embora carregue o peso das cobranças e comparações que ela proporciona.

Em quase meio século de magistério, assim como no conto de Vasconcelos, vi muitos Zezés “irem longe na vida”. Tenho tido a felicidade de acompanhar o sucesso de milhares de ex-alunos. Ao contrário do que ouço de jovens professores, conforme relatei, vejo as novas gerações como muito educadas e comprometidas com os estudos. São gentis, respeitosas e ansiosas por aprender. Nunca fui desrespeitado por qualquer aluno. Quando jovem, eles me tratavam com mais proximidade; agora, já velho, me tratam com carinho, respeito e admiração. A mesma admiração que sinto por eles.

A vida, por sua própria natureza, tem uma finitude para todos. Essa finitude é inexorável, e a cada um de nós é concedido um certo tempo aqui nesta dimensão. Ter sido professor por tantos anos foi — e continua sendo — um privilégio: pude conviver com a juventude e, ao mesmo tempo em que me espelhava nos exemplos dos mais velhos como referência em muitos aspectos da vida, também contribuía para a formação dos jovens. E, apesar de reconhecer essa finitude, sinto-me realizado naquilo de mim que deixo em cada um de meus alunos, que, por sua vez, transmitirão algo às próximas gerações.

Percebo que a vida passou muito rapidamente, mas não tenho tristeza nem ressentimento por isso, pois vivi intensamente cada minuto de minha existência. Fico ainda mais feliz ao ter a certeza de que, como Zezé, cada um desses jovens irá muito longe, seguindo o caminho de suas aspirações. Cada um deles será um sol, em torno do qual as estrelas brilharão. O futuro de nosso país estará em boas mãos. Estou seguro disso.

Luiz Cláudio de Almeida Barbosa, PhD
Prof. Titular de Química da UFMG

12 de setembro de 2025