Cozinhar em panela de alumínio é seguro? O que diz a ciência hoje
A química costuma aparecer no noticiário associada a acidentes e contaminações, reforçando uma imagem negativa da área, apesar dos inúmeros benefícios que ela traz ao cotidiano. Nesse ambiente de desconfiança, dúvidas sobre produtos de uso diário ganham espaço com facilidade. Entre elas está a das panelas de alumínio, presentes na maioria das cozinhas brasileiras. Afinal, cozinhar nesses utensílios faz mal à saúde? A pergunta ressurge com frequência — e merece ser respondida com base nas evidências científicas.
As panelas de alumínio estão entre as mais usadas no Brasil e no mundo. Leves, baratas e com ótimo desempenho térmico, substituíram as antigas panelas de ferro comuns no país. Há décadas, a ciência investiga possíveis riscos associados ao uso desses utensílios — e, no geral, os resultados são mais tranquilizadores do que se imagina.
O alumínio, um dos elementos mais abundantes da crosta terrestre, só foi obtido em forma metálica em 1825, pelo dinamarquês Christian Ørsted, ainda de modo impuro. Em 1827, Friedrich Wöhler aprimorou o método, mas o metal seguiu raríssimo, chegando a valer mais que o ouro. A mudança veio em 1886, quando Charles Hall e Paul Héroult desenvolveram, de forma independente, um processo eletrolítico que permitiu a produção em larga escala — e derrubou os preços. Desde então, o alumínio passou a ser peça-chave na indústria, nas embalagens e nos utensílios domésticos.
Diversos estudos investigam a transferência do alumínio para os alimentos durante o preparo. Pesquisadores da Universidade de Aveiro, em Portugal, mostraram que fatores como acidez do alimento, tempo e temperatura de cozimento influenciam a quantidade de metal que migra para a comida. Preparações ácidas — com limão, tomate ou vinagre — tendem a provocar maior liberação.
Mais recentemente, em 2025, Jörg Feldmann e colaboradores da Universidade de Graz, na Áustria, analisaram panelas de dez fabricantes diferentes. O estudo avaliou não apenas o alumínio liberado, mas também 34 metais presentes nos utensílios, entre eles arsênio, cromo, chumbo, ferro, manganês, níquel e zinco. As análises mostraram que esses metais são liberados em quantidades variáveis, dependendo do tempo e das condições de cozimento. Em algumas panelas, após 15 minutos de preparo, as concentrações de alumínio, chumbo e manganês ultrapassaram limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A acidez do alimento e a duração do aquecimento foram os fatores com maior impacto.
Outro estudo recente, publicado na revista Ecotoxicology and Environmental Safety, investigou a relação entre alumínio e Alzheimer. Liderada por Richard D. Handy, da Universidade de Plymouth, a pesquisa concluiu que há associação estatística entre exposição ambiental ao alumínio e maior risco da doença. Porém, os autores ressaltam que não há evidências suficientes para afirmar que o metal seja a causa direta — especialmente porque os estudos analisados apresentam grande variação metodológica e porque o desenvolvimento do Alzheimer envolve múltiplos fatores.
Segundo avaliações da OMS e do comitê conjunto FAO/OMS, pequenas quantidades de alumínio podem se acumular no organismo, principalmente nos ossos. Há evidências de que o metal atravessa a placenta e, em doses elevadas, causa efeitos neuromusculares em animais. Para orientar uma exposição segura, esses órgãos estipularam um limite semanal de ingestão de cerca de 1 mg por quilo de peso corporal — valor que pode ser ultrapassado por crianças, especialmente as que consomem algumas fórmulas infantis à base de soja, conhecidas por conter maior teor de alumínio.
No dia a dia, várias fontes contribuem para a ingestão do metal: alimentos, embalagens, folhas de alumínio, cosméticos, medicamentos, poeira doméstica e até a água tratada com sulfato de alumínio. A Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021, estabelece limite máximo de 0,2 mg por litro na água para consumo humano, embora sistemas modernos de tratamento registrem valores bem inferiores.
Cientistas são unânimes ao afirmar que, como a ingestão de alumínio através da dieta já pode ultrapassar níveis considerados seguros para crianças, toda exposição adicional deve ser minimizada. O risco não está em uma única fonte — como as panelas —, mas no conjunto de todas elas. Por isso, autoridades de saúde recomendam reduzir exposições desnecessárias, sobretudo para lactentes, crianças pequenas e gestantes.
No geral, cozinhar em panelas de alumínio é seguro, desde que se utilizem utensílios de boa qualidade e que se evite o preparo prolongado de alimentos muito ácidos nesses recipientes.
A mensagem dos especialistas é clara: informação e cuidado são mais importantes do que alarmismo.
Luiz Cláudio de Almeida Barbosa, PhD
Prof. Titular de Química – UFMG
E-mail: lcab@outlook.com



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