COLUNA | Um caso de AVC

Muitos da minha idade e até um pouco mais pra lá, se acham jovem e, o pior, agem como tal, principalmente, na tentativa de mostrar os seus dotes de conquistador.

Eleonor, um colega meu, cansou da vida de casado e se separou da mulher que, diga-se de passagem, já tem um lugar no paraíso por ter suportado tamanho peso e por tanto tempo. O separou, no caso, foi um ato dela. O dele, foi obedecer e, embora a contragosto, procurar o seu rumo.

Rumou primeiro para o boteco. Lá com certeza encontraria outros infortunados pelo destino e conhecidos de longa data. Encontrou algumas almas piedosas para dividir os drinques. Mas quando começou a “buzinar” em ouvidos alheios as suas lamúrias, a coisa mudou de figura e viu-se sozinho na multidão de frequentadores. Como, além da roupa do corpo, único bem que lhe sobrou da partilha, tinha um dinheirinho reservado, resolveu queimar as reservas no ardente verão de Guarapari. Esqueci-me de dizer que Eleonor é mineiro, nosso conterrâneo.

Lá, para economizar, alugou uma espelunca bem em conta, apenas para dormir, e foi para a praia. Chovia, mas tinha praia, uma vez que ela é fixa, independente do clima. Isso, no primeiro dia.

Os dias seguintes foram de sol ... inclemente para quem trabalha, mas gentil para os momentos de ócio. Desde o primeiro desses dias de sol reparou na silhueta de uma moça que bronzeava a sua juventude na generosidade dos raios do astro-rei.

A partir daí, montou acampamento. Todos os dias no mesmo local vendo a moça no mesmo outro local das proximidades, ele dava umas piscadelas e fazia trejeitos com os lábios, a exemplo de conquistador à moda antiga.

Olhou para ela várias vezes e ela começou também a perceber e a lhe dirigir olhares. Primeiro, ocultos nas lentes espelhadas dos óculos de sol. Depois, por cima dos óculos. Um olhar envolto em mistério que Eleonor interpretou de acordo com a sua expectativa.

Naquela noite nem dormiu direito. No pouco que o cansaço venceu a euforia...sonhou! E não foi um sonho qualquer. Ali mesmo no mar ela veio se aproximando insinuante e bela. Tão insinuante e bela que ele não aguentou, dirigiu-se a ela, cheio de amor ... acordou! 

De volta à manhã, tão logo se espraiou no seu cantinho, as mesmas trocas de olhares. Caprichou nas piscadelas e nos trejeitos com os lábios, que ele julgava um sorriso infalível. A moça já nem disfarçava. 

Olhava insistentemente para ele. Olhar que penetrava fundo e o examinava dos pés à cabeça. Percebeu nos olhos dela um brilho diferente, mais intenso e não titubeou. Era agora ou nunca... Era só chegar...e com estilo levantou-se, gingando, jogando o corpo de um lado para o outro.

De repente, ele se viu cercado pelo pessoal do Samu. Como ficou sem reação, foi logo colocado em uma maca e jogado dentro da ambulância.

O olhar da moça não era de paixão. Era de compaixão: quando ela o viu piscando, contorcendo os lábios e caminhando cambaleante, pensou que se tratava de um AVC.