Fundado em 6 de junho de 1818, e sediado no atual local a partir de 1892, no Parque Municipal da Quinta da Boa Vista, Museu Nacional chegou ao seu 208º ano em 2026
Domingo, dia 2 de setembro de 2018, 19h30min. De repente um clarão tomou a noite. A seguir, o propalado inferno se manifestou em todo a sua magnitude. Vidas de alguns milhares de anos e outras mais recentes foram incineradas pelas chamas que lamberam avidamente a história.
Naquele momento, o Museu Nacional, do Parque Municipal da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, expunha ao público um dos mais horripilantes quadros que artista algum ousou assinar a obra... uma catástrofe cultural sem precedentes.
E já que estamos em setembro, foi no palácio que abriga o Museu Nacional que teve início o processo de independência do Brasil. No dia 13 de agosto de 1822, Dom Pedro (o primeiro) passou o poder a Dona Leopoldina - a esposa e quem realmente mandava na casa, acho! - nomeando-a chefe do Conselho de Estado e Princesa Regente Interina do Brasil, com todos os poderes legais para governar o país durante a sua ausência, e partiu para São Paulo.
Nesse ínterim, a princesa regente recebeu notícias que Portugal estava preparando uma ação contra o Brasil. Sem tempo para aguardar a chegada de Dom Pedro, Dona Leopoldina, aconselhada pelo ministro das Relações Exteriores, José Bonifácio, reuniu-se na manhã de 2 de setembro (olha a data!) com o Conselho de Estado, assinou a declaração de Independência do Brasil. O famoso Grito do Ipiranga só aconteceu cinco dias depois. Ou seja, Dom Pedro só levantou a espada e desprendeu o grito. O resto quem fez foi a Leopoldina.
Abro aqui uma lacuna para Dom Pedro, o primeiro. Que voz possante! Sem megafone ou quaisquer outras parafernálias eletrônicas, o homem deu um grito que foi ouvido por todos entre tropeis dos cavalos e das tropas ufanistas dos dois lados do riacho...até historiador ouviu!
Voltando ao museu, Minas Gerais também tinha uma presença marcante no acervo: o crânio de Luzia. Luzia é de inestimável valor científico por se tratar do mais antigo fóssil humano já encontrado no Brasil e nas Américas. O crânio, pertencente a uma mulher que viveu há mais de 11 mil anos, foi descoberto em uma gruta da região de Lagoa Santa, em 1975, e é fundamental para se compreender como ocorreu a ocupação do continente americano.
Pois bem, a peça, naquele fogaréu, mesmo guardada em uma caixa de metal, ficou reduzida em vários pedaços. Paleontólogos e outros profissionais, que resgatam a história achegando fragmentos do passado, estão juntando os caquinhos da Luzia até hoje.
Aos poucos o espaço é restaurado e vive um momento de esperança. Mesmo inacabada a reforma e após sete anos fechado devido ao sinistro (e que sinistro!), o Museu reabriu parcialmente ao público de agosto a setembro do ano passado com a exposição “Entre Gigantes: uma experiência no Museu Nacional”, que incluiu, entre outras peças, fragmentos do crânio de Luzia.
Outras exposições seguintes mostram também à história do próprio edifício, os processos científicos e as descobertas arqueológicas realizadas durante a reconstrução.
Tem brasileiro que se ufana de conhecer vários museus ao redor do mundo, mas sequer procurou conhecer as relíquias guardadas no Museu Nacional, um dos maiores guardiões de história natural e de antropologia das Américas.
Ele está renascendo das cinzas. Ainda há tempo de acender a memória!