COLUNA | Solilóquio

Escrito por Jeremias de Castro

No meu tempo não havia fase intermediária.Com o tempo, a menina virava moça e o menino virava rapaz... sem maiores explicações. Ou seja, a infância durava mais um pouco.

Essa coisa de adolescência já era até ventilada desde o início do século da minha infância, que foi no milênio passado. Mas não havia chegado até nós. Ainda bem!

E foi nesse durar mais um pouco, que uma virtude se aflorou em mim. Embora outros achassem que fosse defeito...essa coisa que chamavam de “um parafuso a mais”. 

- Quando criança eu falava sozinho...ou corria...nunca os dois ao mesmo tempo! 

Não era nenhum desvio. Eu apenas verbalizava os sonhos que eram muitos na minha cabeça e tinham necessidade de escapar pela boca.

Quando eu corria para alcançá-los diminuía a pressão e eu não falava.

Mas a turma achava que eu era doido mesmo e eu fui me acostumando com as doidices e achava que louco era ser normal... carregar frustrações...repisar traumas...amadurecer distúrbios.

Eu apenas falava sozinho para organizar os sonhos. 

Mas eles eram tão desorganizados que até para sair pela boca, alguns deles não esperavam a vez...aí eu tinha que correr para alcançar o fugitivo... era assim como caçar Pokémon. Embora eu não saiba o que é caçar Pokémon.

Bom, antes que o leitor se perca deixe eu explicar o que é falar sozinho:

É assim: uma pessoa na rua com o fone de ouvido conectado no celular, conversando com outra pessoa. Só que sem celular e sem fone de ouvido!

Quando deixei a infância e virei rapaz, que era o mesmo que fase adulta, eu parei de falar sozinho. Os sonhos ficaram menos (não menores) e se alojavam perfeitamente no espaço a eles destinado. Sobrou até vaga.

Aí já tinha gente estudando o meu “fenômeno”, que já não era assim tão particular. Milhares de pessoas já adotavam o procedimento. Embora de forma mecânica...assim como andar e correr... na minha infância eu também corria!

E neste estudar descobriram que falar sozinho era normal. Aí eu achei que era louco!

O negócio tem até nome “solilóquio”. É também um talento...uma arte.  Tem a definição no “Aurélio” e no google também. 

O “Aurélio” foi, digamos assim, o antecessor do Google. Todo mundo tinha um em casa e em algumas bibliotecas ainda tem. Era o conhecimento palpável...um dos apelidos dos dicionários.

Hoje a turma tem adolescência e celular...que bom! Falar sozinho é mais comum do que muita gente pensa. Mas passou a ser um cacoete quase imperceptível. É preciso ter muito tato para perceber. Se confunde muito com o falar no celular por intermédio de um fone sem fio e na rua...ou seja é a mesma coisa...não a mesmíssima coisa:

 - O que muda é o sonho da conversa!

Quando criança, os meus sonhos eram tantos e quase sempre escapavam pela boca. As pessoas, aquelas com sonhos mais reduzidos, olhavam-me apiedadas, achavam que era loucura prematura.

Mas eu ouvia outras vozes que ouviam minha voz e, aí, era melhor não parar para explicar. A estrada a minha frente era larga e não se via o fim, por mais que parecesse uma vereda aos olhos alheios. Aos poucos a estrada foi se estreitando e o meu horizonte já não parecia tão distante. Fui-me enveredando. 

Os sonhos que me escaparam pela boca eram os mais lindos!