COLUNA | Os segredos que seus cabelos guardam
Você imaginaria que um fio de cabelo pode guardar informações sobre drogas, toxinas, hormônios e até alterações relacionadas a doenças, muito tempo depois de esses acontecimentos terem ocorrido? Em outro artigo, eu disse que um fio de cabelo carrega, em sua superfície, a história do tempo, da química e da luz. O que não disse é que, em seu interior, ele pode guardar outros segredos, que a ciência consegue revelar mesmo muitos anos após a morte.
As pesquisas sobre a composição química dos cabelos e suas aplicações em análises clínicas e forenses vêm se desenvolvendo muito nas últimas décadas. Recentemente, Venetia A. Florou, da Escola de Medicina Johns Hopkins, e colaboradores analisaram os avanços na área. Técnicas como a cromatografia e a espectrometria de massas permitem separar, identificar e quantificar uma grande variedade de substâncias presentes no cabelo. Tradicionalmente, o cabelo tem sido utilizado na ciência forense e em estudos de toxicologia ambiental, principalmente para investigar exposição a drogas, venenos e poluentes.
Os cabelos variam muito, mas, em média, crescem aproximadamente 1 cm por mês. À medida que cresce, o fio pode incorporar substâncias presentes no organismo e no ambiente. Se alguém, por exemplo, consumiu cocaína e a análise for feita muitos dias depois, sangue, saliva ou urina podem apresentar resultado negativo. No cabelo, entretanto, a droga ou seus metabólitos podem permanecer registrados por períodos muito mais longos.
O etanol, por exemplo, não é um marcador adequado no cabelo, mas produtos relacionados ao seu metabolismo, como os ésteres etílicos de ácidos graxos, podem ser detectados. Para reconstruir a sequência temporal de uma exposição, o cabelo pode ser analisado em pequenos fragmentos, de apenas 0,4 mm, correspondentes aproximadamente a um dia de crescimento. A análise sequencial desses fragmentos pode, em determinadas condições, indicar quando ocorreu a exposição a uma droga.
Os metais também estão entre os casos mais antigos de uso do cabelo como material forense. Elementos como chumbo, cádmio, mercúrio e arsênio podem ser investigados como indicadores de exposição. Já em meados do século XIX, foi identificado arsênio em cabelos de um corpo exumado 11 anos após a morte, mostrando a extraordinária capacidade do cabelo de preservar sinais de exposições ocorridas muito tempo antes. Um dos casos mais famosos é o de Napoleão Bonaparte. Análises realizadas ao longo das décadas encontraram concentrações elevadas de arsênio em seus cabelos, alimentando a hipótese de envenenamento. A interpretação, porém, permanece controversa: estudos posteriores mostraram que o papel de parede de sua residência em Santa Helena continha arsênio em quantidade suficiente para causar exposição, levantando a possibilidade de que parte do arsênio encontrado nos cabelos tivesse origem ambiental, e não em um envenenamento deliberado.
Mas talvez a aplicação mais surpreendente esteja surgindo agora. O cabelo pode também registrar substâncias relacionadas ao funcionamento do organismo. Um exemplo é o cortisol, hormônio associado à resposta ao estresse. Sua análise no cabelo permite estimar a exposição acumulada ao hormônio durante períodos mais longos. Estudos investigam essa possibilidade em situações como estresse crônico, síndrome de Cushing e doenças metabólicas e cardiovasculares. Isso não significa que um fio de cabelo possa, hoje, diagnosticar essas doenças, mas que pode conter biomarcadores capazes de ajudar a compreender processos que se desenvolvem ao longo de meses ou anos.
Pesquisas recentes procuram relacionar a composição química do cabelo a diferentes doenças, inclusive alguns tipos de câncer. Além da busca por substâncias específicas, abordagens como a proteômica e a metabolômica permitem investigar, de maneira mais ampla, proteínas e pequenas moléculas presentes no cabelo, ampliando a possibilidade de encontrar novos biomarcadores. Cor do cabelo, tratamentos químicos, exposição ambiental e características individuais podem interferir nas análises.
Portanto, se você tem algo a esconder e não quiser ser descoberto muitos anos depois, talvez seja melhor não contar apenas com a passagem do tempo. O cabelo pode guardar uma pequena parte da nossa história química — e os olhos da ciência estão aprendendo a lê-la.
Saiba mais: Florou et al., Biochemistry and Biophysics Reports, 2025, v. 43, p. 102129.
Luiz Claudio de Almeida Barbosa
Belo Horizonte, 10 de setembro de 2026


