Polícia investiga rede de crimes violentos ligada a dívidas e gado na região de Teixeiras
Inquérito apura homicídios, extorsão, agiotagem, furto de gado e lavagem de dinheiro em Teixeiras e municípios vizinhos. Oito pessoas estão sendo investigadas, mas o Ministério Público ainda não ofereceu denúncia
A Polícia Civil de Teixeiras investiga uma suposta organização criminosa envolvida em homicídios, furto e receptação de gado, agiotagem, extorsão e lavagem de dinheiro. O inquérito apura a ligação entre crimes ocorridos nos últimos anos e possíveis disputas relacionadas a negociações de animais e dívidas financeiras na zona rural da região.
O principal caso sob investigação ocorreu em março de 2023, quando três pessoas foram assassinadas no mesmo dia. Segundo a apuração, um homem matou o próprio pai e o irmão e, em seguida, assassinou a mãe de um possível comparsa.
Os crimes ocorreram em uma propriedade rural de Teixeiras e teriam relação com conflitos familiares, negociações de gado e débitos de alto valor. Dias depois, a polícia encontrou um corpo carbonizado na carroceria de uma caminhonete incendiada, na zona rural de Guiricema. Exames de DNA apontaram que a vítima seria o homem suspeito dos três homicídios em Teixeiras.
A investigação considera a possibilidade de o assassinato ter ocorrido em um acerto de contas ou em uma tentativa de eliminar uma testemunha, mas a motivação ainda não foi esclarecida. Documentos e celulares apreendidos durante a Operação “Back in Black” indicam a existência de cobranças com juros abusivos e de operações financeiras sem registro regular.
Os materiais também são analisados para esclarecer a participação de cada investigado e a eventual relação entre as dívidas e os crimes violentos. Relatórios da investigação apontam que alguns suspeitos movimentaram valores elevados e mantinham patrimônio estimado em cerca de R$ 15 milhões.
Os bens estariam concentrados principalmente em imóveis e transações envolvendo gado. A Polícia Civil também apura suspeitas de ocultação de cadáveres, posse ilegal de armas de fogo de grosso calibre e lavagem de dinheiro. O Ministério Público de Minas Gerais acompanha o inquérito, que tramita sob sigilo para preservar a coleta de provas.
Depoimentos reunidos até o momento descrevem um cenário de medo e coação entre moradores da zona rural, além de possível controle sobre a comercialização de animais. A perícia ainda não descartou a hipótese de tortura na morte de Oldair Lopes Nogueira, apontado como autor do triplo homicídio. Novas diligências devem buscar esclarecer as circunstâncias da morte, identificar todos os integrantes do grupo e definir a responsabilidade individual dos envolvidos.
O triplo homicídio
O triplo homicídio aconteceu em 17 de março de 2023, na zona rural de Teixeiras, e dois dias depois, o corpo de Oldair, carbonizado, foi encontrado na carroceria de sua própria caminhonete, na Serra de Crindiúbas, na zona rural de Guiricema, próximo à divisa com Ervália.
De acordo com o histórico da ocorrência, a Polícia Militar recebeu uma ligação pelo telefone 190 informando que um homem em uma picape Fiat Strada, de cor cinza, havia atirado contra três pessoas no Córrego Vista Alegre e na Fazenda Aurora, na zona rural de Teixeiras, em direção ao município de Pedra do Anta. Depois dos disparos, o suspeito teria fugido pela estrada vicinal que leva a Viçosa, utilizada por caminhões de uma mineradora.
No Córrego Vista Alegre, os militares fizeram contato com Célio, que relatou ter chegado à residência e encontrado a mãe caída na copa da cozinha, aparentemente sem vida. Segundo o depoimento registrado na ocorrência, Célio apontou Oldair como o autor dos disparos e disse que os dois haviam discutido recentemente por causa da compra de bois.
Ainda conforme o relato, Célio informou aos policiais que a negociação envolvia animais adquiridos por Oldair e que havia divergência quanto ao acordo. Na Fazenda Aurora, os policiais encontraram outro cenário de violência. Uma mulher relatou que segurava a mão do filho, que agonizava e pedia água. O homem morreu antes da chegada do atendimento pericial.
No imóvel, os policiais localizaram Jadir Lopes Nogueira caído no chão, aparentemente sem vida, e Estarlino Lopes Nogueira sobre uma cama, também morto. A investigação registra que Oldair teria matado o próprio pai e o irmão e, em seguida, seguido até a residência de Theresinha, onde também teria efetuado disparos contra ela.
O inquérito apura se o crime foi motivado por um desentendimento relacionado à negociação de gado ou por outros conflitos ainda não esclarecidos.
Corpo carbonizado
Dois dias depois, a caminhonete de Oldair foi localizada incendiada na zona rural de Guiricema. No compartimento de carga estava o corpo de Oldair, carbonizado e o estado do cadáver impedia o reconhecimento inicial. Uma comunicação anexada ao inquérito informa que Oldair teria sido capturado por pessoas ligadas às vítimas do triplo homicídio, naquele mesmo dia.
O documento levanta a possibilidade de que ele tenha sido torturado, morto e colocado na carroceria da própria caminhonete, que teria sido incendiada em seguida. Essa versão, no entanto, ainda não foi comprovada pela perícia.
Perícia não define causa da morte
O exame pericial identificou fraturas e desintegrações ósseas provocadas, em grande parte, pela ação do calor intenso do incêndio. Também foram observadas lesões na calota craniana e nos membros. Os peritos afirmaram que não era possível descartar completamente a ocorrência de trauma antes da exposição ao fogo. Por causa das condições do corpo, a causa da morte foi classificada como indeterminada. O laudo informa que não há elementos suficientes para afirmar ou negar o uso de tortura ou de meio cruel. A perícia, portanto, não confirmou a hipótese apresentada na comunicação policial.
Gado e dívidas
Além do triplo homicídio e da morte de Oldair, o inquérito reúne informações sobre possíveis crimes relacionados à compra e à venda de gado, cobranças de dívidas, extorsão, agiotagem, furto e receptação de animais. A Polícia Civil também investiga suspeitas de associação criminosa, lavagem de dinheiro e posse ilegal de armas.
Os documentos são analisados para esclarecer se havia uma relação entre as negociações de gado, os débitos mencionados nos depoimentos e a sequência de mortes. A apuração também busca definir a responsabilidade individual de cada pessoa eventualmente envolvida. O inquérito tramita sob sigilo e ainda depende de novas diligências. Até o momento, as versões reunidas no procedimento são objeto de investigação e não representam condenação. A responsabilidade criminal somente poderá ser definida após o devido processo legal e decisão judicial.
Matéria publicada na edição 3668 do Folha da Mata - 17/09/2026. Se você quer ver com exclusividade, fique sempre de olho na banca mais próxima da sua região!



