COLUNA | Simpatia

Na minha época de criança – e daí já passou um tempinho bem bom – a meninada fazia muita traquinagem. Mas nenhuma delas chegava perto do desastre que esse “el nino” promove hoje em dia.

Mas havia seca. Às vezes das brabas. Quando a estiagem prolongava em Viçosa, a Dona Adaíde (Daíde), moradora da rua Doutor Brito, ajuntava um bando de crianças, cada uma com sua garrafinha d’água, e seguiam em romaria até o final da rua do Cruzeiro, onde havia o cruzeiro (que lógica incontestável), ali pelas bandas do que é hoje a igreja católica, na praça Levindo Coelho, parte alta do bairro Santa Clara.

Lá, contritos, todos rezavam e, com mãos postas e olhar fixo no céu azul sem nenhuma nuvem anunciadora, suplicavam pela chuva. Depois, despejavam o precioso líquido e molhavam a base do sagrado lenho.

Era garantido. Dentro de dois ou três dias, ou mais um pouco mais ou menos, chovia! Umas gotinhas, às vezes, mas funcionava. E a fama da dona Daíde corria nas redondezas. Cada vez mais meninos subiam o morro, conservando a madeira sempre úmida e a esperança das pessoas sempre acesa.

Quando não era lá, era nas Nove Cruzes. A soma das cruzes quase dava um cruzeiro também. Mas promessa boa era que se fazia aos pés do Cruzeiro, que ficava no final do morro nominado por ele.

A gente criança rezava era para não chover para repetir o ritual mais vezes. Era uma diversão. A não ser quando alguém, daqueles adultos que iam juntos para adulterar a penitência, cismava em puxar o terço, começar a ladainha e nos obrigar a acompanhar.

Numa feita, ia lá eu seguindo o cortejo. Garrafinha cheia d’água, sol escaldante, muito suor e a sede apertando. Fiquei um pouco mais para trás e sorvi aliviado a água destinada ao cruzeiro. Pouco adiante, a água fez o efeito que toda água ingerida faz. Atrás de uma moita, usei a mesma garrafa para devolver o líquido, expelido por via distinta por de onde adentrara.

Contados minutos depois chegamos ao destino. Rezas, súplicas e a corriqueira simpatia. Um a um e eu também segui o ritual com minha porção processada. 

Se pequei? Não sei! Só sei que naquela noite caiu uma das mais fortes tempestades que a cidade já presenciou.