COLUNA | Normalista

A Escola Normal Nossa Senhora do Carmo, hoje Colégio Carmo, foi fundada em 1917. Mas foi em 8 de setembro de 1919 que ela se transferiu para a sede, que seria própria depois, ali na hoje Virgílio Val, 118, onde antes funcionava a fábrica de Tecidos Santa Maria e a via chamava rua das Vassouras. Não é do meu tempo, mas a sede original está lá até hoje...e funcionando!

“As normalistas eram as moças que cursavam o Curso Normal também conhecido como Magistério de 1º grau ou Pedagógico sendo um tipo de habilitação para o magistério nas séries iniciais do ensino fundamental”.

Definição de dicionário é muito árida: falta profundidade, carinho e romantismo.

Ai, as tardes fagueiras... ai, os setes dos setembros...ai, os dias da cidade!

Pieguice demais também machuca o leitor. O ideal é o meio termo. E é assim que comportamos.
As moças que frequentavam a Escola Normal “Nossa Senhora do Carmo” eram bem educadas, delicadas e, sobretudo, bonitas. A maioria descendentes de família da classe média para cima. Umas eram internas, geralmente aquelas que vinham de outras cidades; outras, residentes em Viçosa, estudavam lá e voltavam para casa.

Depois das tarefas diárias... aulas, trabalhos escolares... as internas, sob os olhares vigilantes das Irmãs de Caridade (freiras), saiam para um passeio vespertino até a Praça Silviano Brandão. No passeio da Praça, davam algumas voltas e retornavam ao educandário que, à época, funcionava naquele prédio antigo colado no Supermercado Amantino.

Os moços da cidade – por onde andam esses moços? - sentavam nos bancos da Praça ou nas cadeiras dos bares circunvizinhos e ficavam apreciando a marcha feminil. Apreciavam e devaneavam. Os sonhos mais lindos passavam pela cabeça como as moças volteavam pelas calçadas. Era um sonho um tanto distante, principalmente, porque, os pais de filha moça, antigamente, eram muito bravos. Depois amansavam... mas poucos rapazes esperavam para ver.

Somado aos nativos, tinha a turma dos pica-fumos da Escola Superior, como eram chamados os estudantes de ciências agrárias da UREMG (Universidade Rural do Estado de Minas Gerais) que depois foi rebatizada UFV. Esta mesma, a centenária! Era uma competição um tanto quanto desleal. Esse pessoal tinha o que se chama “bala na agulha”. Se não tinha dinheiro, alguns, todos tinham futuro assegurado. Já chegavam com ar “superior.

Nos feriados cívicos, principalmente no 7 de setembro, misturava tudo. As meninas do internato e as externas. Era todo um esplendor azul e branco no uniforme de gala: saia plissada, blusa de botão e meia até o joelho, gravata, boina, fita, sapatos tipo bonecas. As que carregavam os pavilhões, isso mesmo, as bandeiras, vinham ainda mais sofisticadas. O desfile era pela manhã e toda a população da cidade participava. Ou melhor, quase toda. Como diria Nelson Rodrigues: “toda unanimidade é burra”. Tem que ter sempre um do contra.

E o 7 de setembro era muito mais que um dia da Independência. Enquanto as moças desfilavam, aqueles moços (pobres moços!) Continuavam a peregrinação pelos reinos das quimeras. Entre as passantes, um deles poderia ser o escolhido por uma delas. Na verdade, muitos conseguiram (vários deles, lá da tal Escola Superior) alguns anos depois. Outros, nem tanto.

Esta turma do nem tanto ia para os bares. Enquanto se amamentava o desengano com lautas doses de rabo de galo e traçado de anis, ouvia da vitrola do estabelecimento a voz grave de Nelson Gonçalves (pense num brega!), a canção “Normalista” vindo de um bolachão (disco de vinil), que o dono do comércio colocava só por sacanagem.

  • Depois do passar das normalistas as andorinhas esvoaçavam o céu prenunciando o início da noite...inalcançáveis!

NR: Para os curiosos, a música “Normalista” pode ser encontrada no google, no Spotify - serviço de streaming de música, podcast e vídeo – tem letra, melodia e muito mais). O que é streaming?...spotify? – Pega leve, leitor!