COLUNA | SAPOS
À época, esse negócio de ônibus oriundos de São Miguel do Anta, Canaã, Araponga, São Bento (hoje Estêvão de Araújo), Pedra do Anta, Porto Firme e Ervália — à ótica de Viçosa — era na base do “vem e volta”, o que não permitia ao viçosense ir a esses lugares e voltar no mesmo dia. Impedimento que se repetia com o trem em direção a Teixeiras e Ponte Nova.
Já para Cajuri, Coimbra, São Geraldo, Visconde do Rio Branco e Ubá — à ótica de Viçosa —, o trem era na base do “vai e volta”: ia-se de expresso ou de mixto (na época, com “x”) e voltava-se de mixto ou de expresso, tudo no mesmo dia. Daí, aos domingos, os nativos corrermos nessa direção para procurar namoradas. E donde — quanto perdíamos! — não explorarmos os mercados de Teixeiras e Ponte Nova...
Mas, eis que, lá pelas tantas, Antônio Araújo quebra o monopólio da Leopoldina Railway e equilibra a balança comercial — com Zé Uá no volante e Mário de trocador —, lançando o primeiro ônibus Viçosa–Ponte Nova. Ida pela manhã, cedinho, e volta à noitinha. Todos os dias. Nas estradas sinuosas, de subidas e descidas íngremes. Poeirentas ou barrentas, conforme a Folhinha de Mariana programasse muito sol ou muita chuva.
Logo, ir a Teixeiras, aos domingos, atrás de namorada, e a Ponte Nova também aos domingos, para cortejar as meninas, e, nos dias de semana, para fazer compras, submeter-se a exames médicos mais complexos ou atender à burocracia das repartições públicas — resolver tudo e voltar no mesmo dia —, só mesmo então com o ônibus do Zé Uá e do Mário.
Mas era uma aventura! Até Ponte Nova, gastava-se quase toda a manhã na ida e grande parte da noite na volta. Gente e outros bichos lotando o ônibus, paradas a cada encruzilhada, “mais um passo atrás, por favor”; malas e sacos com mercadorias cobertos de lona lá por cima, outras bugigangas cá dentro do ônibus. Guarda-pó e, quase sempre, a galocha para os lamaceiros, nas emergências de ter-se que empurrar o ônibus.
Coisa que outros bichos não usavam nem faziam. Galinha, quase sempre; gato, cachorro e porco, às vezes.
E, surpreendentemente, não havendo pessoas em pé, nem sequer um daqueles bichos — céus! —, no dia em que viajavam algumas freiras, todas assentadinhas, surgiu, autorizado pelo Zé Uá, um cabrito mal-educado, que espalhava cocô, parecendo café em polpa, pelo corredor...
Material que rolava de frente para trás quando o ônibus subia; de trás para frente quando o ônibus descia. E, nervoso, usando vocabulário que, à época, feria os ouvidos das irmãs de caridade, Mário perturbava também a nós outros e ao próprio Zé Uá...
Que freia o ônibus, vira-se para trás e produz a frase que Viçosa jamais esqueceu:
— Ô Maro! Arrespeita as madre, c******!
SAPOS
Publicado na edição 2.124, de 13/11/2009.



