MEMÓRIAS DE UMA CASA QUE HOJE SE TORNOU PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA

Autor: Vivaldo Andrade dos Santos e todos os irmãos que fazem parte dessas memórias. Vivaldo é professor de Literatura e Cultura Brasileira, e também de Poesia e Cinema Latino-Americano na Georgetown University, em Washington, D.C., EUA

MEMÓRIAS DE UMA CASA QUE HOJE SE TORNOU PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA

Para os mais velhos, são memórias guardadas na pele; para os jovens e netos que não vivenciaram os desafios da pobreza de outrora, parecem apenas histórias de um tempo distante. Quem é de Viçosa, e precisou da saúde pública, se lembra bem da saga para conseguir uma consulta médica pelo antigo INPS e de como era preciso vencer as madrugadas frias e escuras na antiga Travessa Sagrado Corações, antes da existência do Calçadão, só para apanhar uma "ficha". 

Naquela época, criar quinze filhos exigia uma força que parecia não ter fim, e a maior provação de Dona Ilda e Seu Antônio era quando a doença resolvia bater à porta. O acesso à medicina era uma conquista diária, paga com sacrifício e horas no sereno.

Quando o peito chiava, a anemia deixava os meninos pálidos ou malnutridos, e as lombrigas enfraqueciam o corpo da meninada; era necessário levar ao médico. Sem falar na terrível dor de dente, que não dava trégua até levar o menino ao dentista no posto da antiga Praça da Bandeira — onde, anos depois, funcionaria o popularíssimo Moreira's Bar — ou, se não fosse lá, arrancar o dente com o conhecido Seu Tute, na Rua dos Passos, pois, sem recursos para tratamento na época, o único remédio era extrair. Então, lá ia Dona Ilda, sair de casa nas noites frias, enfrentando o sereno com dois ou três filhos para lhe fazerem companhia e aprenderem, para guardarem lugar no futuro quando fosse necessário pegar outras "fichas". 

O destino era a fila, onde o único objetivo era garantir uma das poucas e disputadas fichas de atendimento. Eram horas intermináveis de pé, das 23 horas da noite anterior até as 7 ou 8 do dia seguinte. Muitas vezes, depois de esperar a noite toda no frio, às 8 horas da manhã vinha alguém avisar que as fichas tinham acabado e não havia mais atendimento.

Quando os recursos da cidade não bastavam, a saga se estendia. Era preciso pegar o trem e ir até Ponte Nova em busca de socorro. Nessas viagens longas e aflitas, com o chacoalhar dos vagões do misto e o coração na mão, Dona Ilda nunca estava sozinha. A solidariedade das comadres era o verdadeiro pilar de sustentação — e a presença constante de Dona Pitucha, amiga e vizinha, garantia que sempre houvesse mais um par de braços para carregar algum filho doente e acalmar o choro.

Era a comadre quem ajudava na leitura dos papéis e na comunicação ao longo do trajeto, dando a força que faltava para que Dona Ilda, mesmo sem saber ler, fosse até o fim do mundo pela saúde dos seus meninos.

Dentro de casa, a cura também vinha da sabedoria da terra e da devoção. Mestre dos remédios do mato, Seu Antônio conhecia o poder das folhas, do hortelã, da carqueja, da canela, e do alho misturado a algum licor de jurubeba quando o Biotônico Fontoura ou a Emulsão Scott, o famoso óleo de fígado de bacalhau (que tínhamos horror), não davam conta, fervendo as plantas na chaleira para cortar a febre e aliviar as dores da meninada. 

Ao mesmo tempo, Dona Ilda entregava o impossível à fé e à tradição: para livrar os filhos do sufoco da asma, recorria às suas simpatias ao pé da árvore de gameleira — onde fincava três pregos no tronco e fazia suas oferendas nas árvores e nos rios a Obaluaê, orixá da saúde —, pedindo com fervor e devoção pelo fôlego, pela cura e pela vida de cada um.

Hoje, aquele tempo de tanta correria, de estações de trem e de fichas contadas virou memória. A saúde pública, ainda que precária, foi necessária para que os de pernas finas e lombriguentos "vingassem" — pois muitos, infelizmente, não tiveram a mesma sorte para vingar. 

No mesmo chão onde o amor e a luta de Dona Ilda e Seu Antônio fincaram raízes, ergueram-se paredes que continuam a acolher quem precisa. 

A casa, na Rua Santana, na famosa Beira-Linha, tradicional bairro dos ferroviários, onde o casal viveu por mais de 60 anos e onde cresceram os quinze filhos, transformou-se, não apenas poeticamente como por meio dessa crônica, mas uma realidade: mais um “Programa Saúde da Família”, graças ao Ministério da Saúde e à Prefeitura Municipal de Viçosa. 

É bonito pensar que o endereço que um dia abrigou o cuidado incansável de uma mãe e de um pai continua, até hoje, a ser um lugar de cura para toda a comunidade no recém-inaugurado “PSF-São Sebastião”.