COLUNA | LIQUEFAZ NA CATEDRAL DE NAPOLES

O milagre do sangue de São Januário, que parece quase ferver e voltar ao estado líquido, permanecendo assim até a oitava seguinte, hoje se repete três vezes ao ano: no primeiro sábado de maio, em memória da primeira translação; em 19 de setembro, memória litúrgica do Santo e data de seu martírio; e em 16 de dezembro, para comemorar a desastrosa erupção do Vesúvio, em 1631, bloqueada por intercessão do Santo.

Em especial, a cada 19 de setembro, memória litúrgica de São Januário, San Gennaro, na cidade de Nápoles, na Itália, seu sangue liquefaz. A repetição do “milagre” é considerada um bom presságio para Nápoles e a região da Campânia.

Em contrapartida, quando o sangue não se liquefaz, os fiéis costumam interpretar o fato como um presságio de catástrofe. Uma dessas ocasiões ocorreu pouco antes da entrada da Itália na Segunda Guerra Mundial.

Mesmo sendo impactante, emblemático e até inusitado, o episódio do sangue que se liquefaz me faz pensar na crônica “Eu sei, mas não devia”, equivocadamente atribuída a Clarice Lispector, mas que é da escritora e jornalista Marina Colasanti. De fato, a gente não deveria acostumar-se com tal forte mensagem, correndo o risco de banalizá-la.

“Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos / e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. / E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. / E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. / E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender cedo a luz. / E, à medida que se acostuma, / esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. / A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. / A tomar o café correndo porque está atrasado. / A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. / A comer sanduíche porque não dá para almoçar. / A sair do trabalho porque já é noite. / A cochilar no ônibus porque está cansado. / A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. / A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. / A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. / A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. / A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e de que necessita. / E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. / E a pagar mais do que as coisas valem. / E a saber que cada vez pagará mais. / E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. / A gente se acostuma à poluição. / Às salas fechadas de ar-condicionado e cheiro de cigarro. / À luz artificial de ligeiro tremor. / Ao choque que os olhos / levam na luz natural. / Às bactérias de água potável. / A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. / Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. / Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. / Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. / Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. / E, se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. / A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. / A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.”

(In Marina Colasanti, no livro homônimo “Eu sei, mas não devia”. Editora Rocco, 1996).

Ao tomar conhecimento de algo tão extraordinário, como o sangue de São Januário que se liquefaz a cada ano em sua festa litúrgica, “eu sei” dos riscos que posso correr, banalizando algo tão sublime, “mas não devia” permitir-me adentrar nos mistérios do Coração Eucarístico de Jesus sem tirar as sandálias e sentir o magnetismo que vem do chão da terra fértil que fecundou a vida de tantos santos, dentre os quais, São Januário.

A cidade de Ubá, localizada na Zona da Mata Mineira, também conhecida como Cidade Carinho, tem como padroeiro São Januário, em homenagem ao Capitão-Mor Antônio Januário Carneiro, dono da sesmaria onde hoje está a cidade de Ubá. Em 7 de novembro de 1815, foi construído o primeiro orago e, posteriormente, em 6 de setembro de 1841, foi elevado a paróquia, circunscrição eclesiástica hoje pertencente à Diocese de Leopoldina.

Januário, nascido como Próculo, na segunda metade do século III, em Nápoles, foi Bispo de Benevento e morreu martirizado. É venerado como santo pela Igreja Católica e pela Igreja Ortodoxa.

Certo dia, enquanto lia o Evangelho na igreja, teve uma visão: apareceu uma chama sobre sua cabeça. Reconhecendo nela o símbolo de seu futuro martírio, Januário deu graças ao Senhor e pediu para que aquele fosse o seu destino.

Foi condenado à morte no ano de 305, durante as perseguições de Diocleciano. Reconhecendo seu destino, o Bispo convidou Sóssio a participar da visita pastoral que se realizaria em Pozzuoli, para falar sobre a fé. O diácono pôs-se a caminho, mas, durante a viagem, foi preso pelos guardas enviados por Dragôncio, governador da Campânia.

Na prisão, recebeu a visita de Januário, acompanhado pelo Diácono Festo e o Leitor Desidério. Os três tentaram interceder, junto a Sóssio, pela sua libertação. Mas, em resposta, todos foram condenados a serem dilacerados publicamente pelos ursos.

No entanto, a notícia da condenação à morte não foi bem vista pelo povo. Por isso, temendo uma revolta, o governador mudou a sentença para uma decapitação discreta, longe dos olhos do povo.

Foram martirizados também Próculo, Diácono da Igreja de Pozzuoli, e os fiéis Eutíquio e Acúcio, por terem criticado a execução publicamente.

Segundo o costume, por ocasião da execução dos mártires, uma mulher, Eusébia, chegou ao lugar da morte de Januário e recolheu, em duas ampolas, o sangue derramado pelo Bispo, já em odor de santidade. Ela as entregou ao Bispo de Nápoles, que mandou construir duas capelas em homenagem ao sagrado translado: São Januarinho, em Vômero, e São Januário, em Antignano.

Seu corpo, ao invés, sepultado na zona rural de Marciano, teve uma primeira translação no século V, quando o culto ao santo já era bem difundido. São Januário foi canonizado por Sisto V, em 1586. É patrono da cidade de Nápoles.

Quanto à relíquia de seu sangue, foi exposta pela primeira vez em 1305. Porém, o milagre do seu sangue, que parece quase ferver e voltar ao estado líquido, permanecendo assim até a oitava seguinte, ocorreu pela primeira vez em 17 de agosto de 1389, após uma grande escassez.

Hoje, o milagre se repete três vezes ao ano: no primeiro sábado de maio, em memória da primeira translação; em 19 de setembro, memória litúrgica do Santo e data de seu martírio; e em 16 de dezembro, para comemorar a desastrosa erupção do Vesúvio, em 1631, bloqueada por intercessão do Santo.

As duas ampolas estão conservadas em uma teca de prata, por desejo de Roberto d’Angiò, na Capela do Tesouro de São Januário, palco de uma cena miraculosa em que o SANGUE LIQUEFAZ NA CATEDRAL DE NÁPOLES!