COLUNA | Nove Cruzes
Só de contar, dá medo.
Houve um tempo em que a noite de Viçosa era de poucas luzes e muito medo. Medo do sobrenatural. E o pior é que as assombrações só apareciam para quem tinha medo.
Os medos de hoje, naturais e perversos, ainda não existiam. Mas, vamos à história em que a coragem venceu o medo e se deu mal:
Há mais de 80 anos que o fato aconteceu. Praticamente ninguém tinha carro em Viçosa. O meio de transporte mais usado para viagens era o trem de ferro. Além de passageiros, o transporte de carga também era feito por trem. Este, tinha o nome de cargueiro.
E foi justamente um cargueiro que causou o acidente. Um pequeno caminhão trazia várias pessoas de Porto Firme para assistir a Semana Santa em Viçosa e, aproveitando a oportunidade, ouvir um discurso de Arthur Bernardes, já não mais presidente e, então, deputado integrante da Assembleia Nacional Constituinte, que visitava a Escola Superior de Agricultura e Veterinária, a ESAV, naquele feriado prolongado.
Ao chegar no cruzamento da antiga usina, no Pau de Paina (hoje bairro Nova Era), o motorista não ouviu o apito do trem e avançou a linha férrea. A colisão foi inevitável. O trem arrastou o caminhão por vários metros e causou a morte de nove pessoas, contando com o motorista. Ou seja, todos!
No local, mãos piedosas fincaram nove cruzes, ação que passou a designar o local. Até hoje, as cruzes estão lá, no mesmo lugar como testemunhas fiéis do caso aqui narrado. Desde então, também, o cruzamento da linha férrea e as redondezas ficaram assombrados.
Quem se arriscava a passar por ali, após o pôr do sol ouvia ruídos estranhos e gemidos agoniantes. À meia noite, então, ninguém se aventurava e, assim, os ruídos e os gemidos nunca eram desvendados. E ninguém queria ser o primeiro a saber.
Até que um dia aconteceu o inevitável. A chuva retardou a viagem de um fazendeiro que tinha propriedade na Colônia Vaz de Melo. Durante o temporal, ele procurou abrigo em uma pequena casa ali para os lados da Barrinha. Passada a tormenta, já eram passadas as 23 horas. Os donos da casa pediram para ele esperar um pouco, mas para demonstrar que era corajoso, disse que não ligava para essas besteiras.
Ao chegar à linha férrea, ouviu primeiro o badalar dos sinos da Matriz anunciando a temerária hora. A seguir, o cavalo empacou e o homem sentiu o sangue gelar nas veias. Em cima dos trilhos, ele viu nove vultos e ouviu o lamentar das sombras. Após o espanto do momento uma voz se pronunciou: “viemos para uma missa e a missa não veio até a nós. Por isso, ainda estamos perdidos, sem encontrar lugar no reino dos mortos”.
A seguir, os vultos desapareceram e o cavalo voltou a seguir viagem. Chegando em casa, o fazendeiro não conversou com ninguém. Estava fora de si. No outro dia, logo que tomou ciência das coisas novamente, foi até a igreja e contou ao padre sobre a sinistra aparição.
Naquele mesmo dia, uma missa foi celebrada em intenção daquelas almas e, nunca mais, se ouviu falar em aparição no local. Só restaram as cruzes como testemunhas silenciosas...
Pelo menos, até agora! - Cruzes!



