Conheça a história do são-miguelense campeão paralímpico

Conheça a história do são-miguelense campeão paralímpico

Tragédia, esperança e conquistas marcam a vida do multicampeão paralímpico e são-miguelense João Paulo Teixeira de Souza. Aos 34 anos, João alcançou o lugar mais alto do pódio no salto em distância T64 do Open Internacional do Circuito Paralímpico Caixa 2026. Ele ainda chegou longe na corrida dos 200 metros, ficando em 3º lugar na classificação geral da competição.

Representante da microrregião, além de atleta de alto rendimento, o esportista é monitor no Colégio Nossa Senhora do Carmo desde 2017, principal fonte de renda para sustentar sua esposa e três filhos. Seu sonho, entretanto, é viver do esporte paralímpico, ainda que o caminho no Brasil seja repleto de dificuldades voltadas à falta de investimentos. 

Ainda sem patrocinador, João Paulo não conquistou um, mas diversos campeonatos ao longo de sua trajetória como atleta, tudo às custas de seu próprio bolso. Ele já foi campeão em campeonatos regionais, nacionais, no próprio Campeonato Brasileiro Paralímpico e, agora, no Open Internacional. 

A história paralímpica de João Paulo, entretanto, iniciou antes mesmo de ele pensar em se tornar atleta. Em 27 de novembro de 2010, com apenas 18 anos, o são-miguelense foi vítima de um acidente de moto que o fez passar por três cirurgias, ao longo de 12 dias de internação. As circunstâncias obrigaram a amputação de sua perna esquerda.

Naquele momento, ele pensara ser o fim de seu sonho de infância. Assim como muitos brasileiros, João sonhava em ser jogador de futebol e cresceu em escolinhas do bairro. "Lembro como se fosse hoje. Foi um período difícil, mas entendi que tudo tinha um propósito maior, então segui na fé para dar a volta por cima", disse.

Mas, segundo o atleta, um novo capítulo foi aberto em sua vida. Em 2011, ele conheceu o projeto inclusivo Fortalecer da UFV (Universidade Federal de Viçosa). Foi o ponto de partida para se reencontrar e buscar um lugar o qual ele se conectava novamente ao esporte. 

Ainda que motivado, entretanto, o início da carreira paralímpica veio um pouco mais tarde. João precisava se adaptar à prótese, que adquirira em uma campanha beneficente. Aos poucos, ele destaca que foi voltando à rotina normal, adaptando-se enquanto trabalhava em âmbitos agropecuários ou em obras com seu pai, José Roberto.

Mas foi somente em 2017, após seis anos, que ele conseguiu finalmente um espaço e uma pitada de esperança. Em uma forma de aumentar sua visibilidade, João começou a publicar vídeos praticando o esporte paralímpico.
Em uma das postagens, o treinador esportivo Júlio Cesila, de Itamarati de Minas, auxiliou o são-miguelense a ingressar em um clube de Belo Horizonte. "Fiz minha classificação funcional, na qual somos avaliados pelos médicos para identificar o grau da deficiência e em qual classe o atleta se encaixa. Entrei na classe T64, para pessoas com amputação de uma perna abaixo do joelho", afirma.
Logo na primeira competição, no Campeonato Regional em Goiânia, o atleta já conquistou três medalhas de ouro, mesmo utilizando prótese de uso diário, não profissional. No torneio, ele disputou a corrida dos 100 metros, o arremesso de peso e o lançamento de dardo. 
Mais tarde, João adquiriu a primeira prótese esportiva junto a um do Instituto Ipo Brasil. "Muitas lesões quase já me fizeram parar, mas a vontade era tanta que suportei o processo e comecei a aprender com os meus erros e falhas", falou.
E, em 2024, o reconhecimento internacional veio: ele foi um dos 76 selecionados, entre 1.300 inscritos, para participar das competições representando o Brasil. Atualmente, o esportista defende o clube Instituto Atlhon de São José dos Campos nas provas de 100 metros, 200 metros e Salto em Distância.
Devoto e religioso, João Paulo ressaltou que, se não fosse por sua família, não teria chegado tão longe. "O que mais me motiva é a minha linda esposa, meus três filhos, que me fazem seguir em frente. Estou vivendo o propósito que Deus colocou pra minha vida e me capacitou a acreditar, pois já estou vivendo algo que já sonhei lá atrás e, se for para eu conseguir avançar, assim será. Vou continuar treinando muito, diariamente, com foco, disciplina e determinação. O esporte me ensinou a superar limites e me mostrou que a maior barreira está na nossa mente".
"Mesmo não tendo estrutura adequada para os treinos, já sou um vitorioso. Trabalho durante o dia e treino somente à noite no asfalto, mas isso nunca me fez desacreditar, só aumentou ainda mais a minha vontade", destacou.