COLUNA | Intoxicações: quando a química presente em casa oferece riscos
Praticamente toda casa brasileira tem sua própria pequena farmácia. Pode ser uma gaveta, uma prateleira, uma caixa ou um armário onde se acumulam medicamentos para dor, febre, alergia, pressão e tantas outras finalidades. Há também os remédios esquecidos, alguns até com a data de validade vencida. E nem sempre sabemos exatamente o que temos guardado. A familiaridade, porém, não elimina o risco. A química acompanha silenciosamente a vida cotidiana e está nos medicamentos, nos produtos de higiene, nos alimentos e em tantas outras substâncias que fazem parte de nossa rotina. É nesse contexto que ganham importância os dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, publicado em julho deste ano, que apresenta um panorama das intoxicações exógenas registradas no Brasil entre 2015 e 2024.
Antes de apresentar esses dados, recordo ao leitor que tratei recentemente deste assunto ao discutir aspectos da toxicologia. Como escrevi naquela ocasião, nesta coluna, uma substância pode apresentar propriedades perigosas, mas o risco depende da maneira, da quantidade e do tempo de exposição. Essa distinção é especialmente importante dentro de casa, onde medicamentos e outros produtos fazem parte de nossa rotina.
Mas o que é uma intoxicação exógena? Em termos simples, é aquela provocada pela exposição a um agente tóxico presente no ambiente externo ao organismo. O conceito inclui medicamentos, agrotóxicos, produtos de uso domiciliar e industrial, cosméticos e diversas outras substâncias potencialmente tóxicas.
Segundo o Boletim, entre 2015 e 2024, o Brasil registrou 1,66 milhão de notificações de intoxicação exógena. Desse total, cerca de 13 mil evoluíram para óbito, o equivalente a 0,8% dos registros. Embora proporcionalmente pequeno, esse resultado revela a dimensão do problema. No mesmo período, as notificações passaram de cerca de 99 mil, em 2015, para 248 mil, em 2024, um aumento de 150%. A tendência é preocupante e indica que as intoxicações exógenas vêm ganhando relevância como problema de saúde pública. O Ministério da Saúde, contudo, alerta que esses dados devem ser interpretados com cautela, devido à subnotificação e às variações na qualidade dos registros.
O dado que mais chama a atenção é justamente aquele que podemos encontrar dentro de nossas próprias casas: os medicamentos foram responsáveis por 53,1% das notificações. Em seguida aparecem as drogas de abuso, com 12,5%, os agrotóxicos, com 8,6%, e os produtos de uso domiciliar, com 5,1%.
A casa aparece, aliás, como o principal cenário dessas ocorrências: 71% das exposições ocorreram em residências, e a principal via de exposição foi a digestiva, responsável por 80,1% dos casos. As crianças estão entre os grupos mais vulneráveis. Os menores de 14 anos representaram 18,7% das notificações, e apenas na faixa de 1 a 4 anos foram registrados 9,1% dos casos. Nessa faixa etária, os medicamentos foram os principais agentes, seguidos pelos produtos de uso domiciliar.
Há, porém, uma dimensão ainda mais grave. As tentativas de suicídio representaram 46,5% de todas as notificações. Entre as intoxicações por medicamentos, essa proporção chegou a 70,1%.
Esses dados tornam-se ainda mais preocupantes quando olhamos para além das estatísticas e percebemos a dimensão humana que elas escondem. O Boletim revela também, ainda que não seja esse seu propósito, uma face dolorosa da vida contemporânea: o recurso a substâncias químicas, em situações de extremo desespero, como tentativa de pôr fim à própria vida. Para além das intoxicações, os números nos lembram da fragilidade humana e da necessidade de estarmos atentos às pessoas que nos cercam. Perceber os sinais de que alguém está enfrentando uma situação difícil e oferecer escuta e apoio pode ser uma forma de intervir antes que o desespero se transforme em tragédia.
Os números mostram, portanto, que as substâncias químicas não são, em si mesmas, uma ameaça. Elas estão nos medicamentos que tratam doenças, nos produtos que limpam nossas casas e em inúmeras substâncias que tornam possível a vida moderna. O problema surge quando desconhecemos as propriedades dessas substâncias ou nos expomos a elas de maneira inadequada. Não podemos fugir da química, mas podemos conhecê-la melhor para compreender os riscos associados às substâncias com as quais convivemos e aprender a lidar com elas de forma mais segura.
]Luiz Claudio de Almeida Barbosa
Prof. Titular de Química da UFMG
Belo Horizonte, 11 de agosto de 2026

