COLUNA | NOTURNO

Me telefonou a cobrar. Para cobrar...

— Semana passada, você falou em ônibus, expresso, misto... e não fez nenhuma referência ao noturno!

— Ué! Minha ótica era ligar Viçosa a outra cidade, de modo que pudéssemos ir e voltar no mesmo dia...

— Mas estrada de ferro não é só até Ubá! É além, muito além... O noturno nos ligava ao Rio de Janeiro...

— O expresso também. Quando iam ao Rio se queimarem na praia, as namoradas dos meninos da reta viajavam nele...

— Noturno...

— Não! Diurno! Dava para as moças apreciarem a paisagem. Ainda que chegassem ao Rio lá pelas oito ou mais. Da noite.

— Noturno...

— Mas predominava o diurno. Na volta era a mesma coisa. O expresso viajava o dia todo, exibindo em cada estação as moças bronzeadas. A chegada era às oito horas ou mais. Da noite.

— Noturno...

— Que diabo de insistência com noturno! Neste, propriamente dito, sim. Predominava o percurso noturno. Já descia a Serra de São Geraldo no escuro. Coisa horrorosa!

— Noturno...

— Logo, não servia para nos levar à vizinhança e voltar no mesmo dia. Ademais, eram só duas vezes por semana...

— Noturno...

— Bobagem! O normal dos trens era diurno. Desde quando os trilhos chegaram a São Geraldo, em 1880...

— Not...

— É o que continuou acontecendo quando os trilhos subiram a serra e chegaram até ali perto da Violeira, em 1884... Ou, já finalmente, em 1914, quando, cassada a Violeira — bem antes, pois, que pretendessem cassar o Violeira —, os trilhos vieram para dentro da cidade.

E Viçosa corria para a estação. Para comprar jornal, ver quem chegava, quem ia viajar, quem estava dentro do trem...

— No...

— Foi num trem diurno que D. Pedro II e D. Teresa Cristina passaram pela Estação Velha, em 1886, a fim de inaugurar a estrada de ferro quando da chegada dela a Ponte Nova.

— Mas o noturno do nosso tempo tinha mais charme. Havia o carro-restaurante. Havia os vagões-leito...

— E o que íamos fazer com o restaurante e os leitos se o nosso objetivo era, aos domingos, chegar a Cajuri para, platonicamente, espiar as turcas? Ou a Coimbra, São Geraldo, Rio Branco, Ubá, para procurar namorada e voltar?

— Então, para Viçosa, o noturno nada servia...

— Servia, sim. Como qualquer trem noturno, servia para atrapalhar o sono do Vico e da Conceição e aumentar-lhes a prole, que acabou ultrapassando uma dúzia...

Publicado na edição nº 2.125, de 20/11/2009.