COLUNA | A meningite ainda preocupa: nossos cientistas trabalham em silêncio

Todos nós recorremos aos medicamentos quando estamos doentes, mas poucos pensam em como eles chegam às farmácias. O Brasil é um grande consumidor, mas a maior parte dos princípios ativos utilizados pela indústria farmacêutica é importada. Essa dependência externa é preocupante e ficou evidente durante a pandemia de Covid-19.

A química farmacêutica brasileira se desenvolveu muito nas últimas décadas, e hoje o país conta com especialistas capazes de atuar nas diferentes etapas da descoberta de novos medicamentos. Muitos trabalham silenciosamente na busca por moléculas contra doenças que ainda desafiam a medicina. Um exemplo é a criptococose, infecção causada por fungos do gênero Cryptococcus que pode atingir o sistema nervoso central e provocar meningite. Entre 2000 e 2022, mais de 12 mil mortes foram registradas no Brasil tendo a doença como causa básica ou associada.

O tratamento da meningite criptocócica utiliza medicamentos como anfotericina B, flucitosina e fluconazol. Eles salvam vidas, mas apresentam limitações, como efeitos adversos importantes e a disponibilidade restrita da flucitosina em muitos lugares. O surgimento de resistência aos antifúngicos reforça a necessidade de novas alternativas. É justamente nesse ponto que a química pode desempenhar um papel decisivo.

Uma estratégia é procurar um alvo importante para o fungo, mas inexistente no organismo humano. É o caso da urease, uma enzima produzida pelo Cryptococcus e relacionada à sua sobrevivência e à capacidade de atravessar a barreira que protege o cérebro. Como nossas células não possuem essa enzima, ela se torna um alvo potencial para novos antifúngicos.

É nesse campo que trabalha o professor Ângelo de Fátima, do Departamento de Química da UFMG, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inibidores de Urease de Interesse Agrícola e Medicinal. Em trabalho recente, ele e seu grupo planejaram e sintetizaram dezenas de moléculas de diferentes classes químicas, buscando novos inibidores da urease do Cryptococcus. Os ensaios bioquímicos e biológicos foram realizados em colaboração com pesquisadores de diferentes instituições brasileiras.

Quatro dessas moléculas se destacaram pelos efeitos observados. Além de impedir o crescimento do Cryptococcus, todas reduziram a espessura de sua cápsula, importante para a virulência do fungo, e algumas também inibiram a produção de melanina e a formação de biofilmes. Duas delas reuniram ainda três efeitos relevantes: inibição da urease, ação fungicida e interferência em diferentes fatores de virulência.

Os estudos mostraram ainda que as moléculas podem inibir a urease por mecanismos diferentes. Essa diversidade demonstra que diferentes estruturas químicas podem atingir o mesmo alvo biológico por caminhos distintos, ampliando as possibilidades para o desenvolvimento de novos antifúngicos.

É importante lembrar que essas moléculas ainda não são medicamentos. São candidatos em uma etapa inicial de desenvolvimento e precisam passar por novos estudos de toxicidade, segurança e eficácia antes de qualquer aplicação clínica. Os resultados mostram, porém, que a urease pode ser um alvo útil e que a química brasileira está contribuindo para a busca de novos tratamentos contra a criptococose.

Um medicamento nasce de um trabalho coletivo. Uma molécula descoberta hoje em um laboratório passará por testes, modificações e estudos antes de se tornar, se tudo der certo, uma alternativa terapêutica.

Enquanto a sociedade vê o medicamento pronto na prateleira, quase nunca vê o trabalho que existe por trás dele. O estudo de Ângelo de Fátima e seus colaboradores é um exemplo desse esforço silencioso e da capacidade científica que o Brasil já possui. Para desenvolver uma indústria nacional de medicamentos, porém, não basta produzir conhecimento: é preciso formar mão de obra qualificada. Como observa Ângelo de Fátima, mesmo quando uma pesquisa não resulta em um novo medicamento, ela deixa um legado importante: “formamos pessoas que levarão esse conhecimento para outros projetos, laboratórios e empresas”. É assim que a pesquisa científica constrói, pouco a pouco, as bases de uma indústria farmacêutica brasileira capaz de deixar de ser apenas consumidora e tornar-se, no futuro, uma potência na produção de medicamentos.

 

Saiba mais: Barreto et al., ACS Omega, 2026, 11, 40601–40616.

Luiz Claudio de Almeida Barbosa

Belo Horizonte, 17 de setembro de 2026