COLUNA | É tempo de Kandunar, tempo de avivar memórias


Em abril de 2024, uma placa de latão, sustentada por duas hastes finas de ferro, foi fincada na Praça do Rosário, em Viçosa.

Era um ato em homenagem à memória dos indígenas Puri. 

O lugar foi escolhido pelo próprio Movimento Indígena Puri Uxo Txori porque ali está uma Sapucaia, árvore sagrada, de uma energia vital sem igual, capaz de proteger e nutrir todo um ecossistema. 

A cerimônia de inauguração reuniu algumas pessoas, contou com falas importantes de Helenice Puri, liderança indígena, e recebeu o apoio da Prefeitura de Viçosa.

A placa era simples, mas dizia muito: esse território é território ancestral dos Puri. E os Puri não pertencem apenas à história. Eles estão aqui.

Oito meses depois, a placa já não estava na praça.

Tinha sido vandalizada. E não foi substituída pela prefeitura.

É difícil não pensar na fragilidade dessa placa feita para registrar uma presença que atravessou séculos de apagamento. Mais difícil ainda é constatar que, depois de retirada, ela até hoje não foi substituída pelo poder público.

A violência contra os povos indígenas não terminou quando a fronteira agrícola e mineradora avançou sobre os seus territórios ou quando a Igreja impôs a sua fé. Há formas de violência que sobrevivem justamente quando parecem ter deixado de existir. Uma delas é fazer com que determinados povos desapareçam em vida, como  se não tivessem história e memória.

A pergunta, então, não é apenas quem destruiu a placa. 

É por que a inação do poder público segue vigente.

O último censo demográfico do IBGE registra mais de mil indígenas Puri na Zona da Mata Mineira. O número cresce cada vez mais. Existem famílias e movimentos sociais em Viçosa que reivindicam direitos. Não estamos diante de um povo que desapareceu, mas de uma presença que ainda luta para ser reconhecida.

Talvez seja esse um ponto socialmente sensível.

Os Puri não permaneceram no passado. Eles estão no presente habitando a cidade, a universidade, participando da vida política, acessando à saúde pública. Ainda assim, é comum que sejam associados a um passado muito distante desconectado da nossa realidade. Quando uma presença como essa se torna evidente, muitos não conseguem ver ou preferem não enxergar.

É preciso aprender a ver essa história que foi contada a partir de muitas ausências e entender como isso permanece atuando politicamente no presente.

Essa história cabe a todos nós compreender. 

A ignorância, o preconceito e a injustiça em relação aos indígenas que vivem na nossa cidade de Viçosa não produzem consequências apenas para os próprios indígenas Puri. Isso também limita o entendimento sobre a diversidade e a complexidade da nossa formação.

A placa precisa ser recolocada.

Não porque a placa seja capaz de reparar séculos de violência. Não é.

Mas porque quando uma cidade deixa de reparar um dano como esse, ela perde a chance não somente de perceber a presença de um povo indígena em seu território ancestral, mas de superar a ignorância, o preconceito e a injustiça que nos constitui. 

Todos nós precisamos dessa memória.

Afinal, você está em Viçosa, território ancestral do povo indígena Puri.

Canto de Helenice Puri. Fonte:  Entrevista concedida à Sabrina Ramos Cornélio - Viçosa: Laboratório de História Oral - Departamento de História - UFV, 30 out. 2025. Equipe técnica: Mateus Borges Firme, João Vitor Rodrigues, Tauan Guimarães e Thiago Vitorino. Apoio FAPEMIG - Demanda Universal 01/2024

  • Protocolo Biocultural do povo Puri: 

Protocolo-Puri-Digital-2.pdf