Mobilização política na UFV gera questionamentos sobre transporte de eleitores

Mensagens convocam estudantes para comitê de candidato e arrecadação para deslocamento de eleitores é levada ao Ministério Público

Mobilização política na UFV gera questionamentos sobre transporte de eleitores

Uma mobilização de estudantes da Universidade Federal de Viçosa (UFV) em apoio ao candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à presidência da república passou a ser questionada em Viçosa em razão da utilização de canais ligados ao movimento estudantil e de uma iniciativa para arrecadar recursos destinados ao deslocamento de estudantes para seus locais de votação.

Uma das mensagens que circulou entre estudantes foi encaminhada por e-mail com identificação do Diretório Central dos Estudantes (DCE-UFV – Gestão Viração). No texto, o DCE convida os estudantes a atuar diretamente na campanha e no debate político no campus e orienta os interessados a ingressar no “Comitê do Lula na UFV”. A mensagem cita ainda a organização de panfletagens, debates, materiais e outras ações de campanha.

Além da convocação, também circularam mensagens para arrecadação de dinheiro com a finalidade de auxiliar estudantes que residem fora de seus domicílios eleitorais a se deslocarem para votar no segundo turno da eleição presidencial. A iniciativa provocou questionamentos sobre a compatibilidade da ação com as regras eleitorais que regulamentam o transporte de eleitores.

Legislação estabelece restrições

A Lei 6.091/1974 estabelece regras específicas para o transporte de eleitores durante o período eleitoral. O artigo 10 determina que é vedado a candidatos, órgãos partidários ou qualquer pessoa fornecer transporte ou refeições a eleitores da zona urbana. O descumprimento dessa proibição é classificado pela própria lei como crime eleitoral. 

Para as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) regulamentou a matéria e reforçou que candidatos, partidos, federações, coligações ou qualquer pessoa não podem fornecer transporte a eleitores no dia da votação. A norma estabelece exceções para serviços regulares, transporte organizado pela Justiça Eleitoral e situações específicas previstas na legislação. 

O próprio TSE destaca que a legislação busca evitar que o transporte seja utilizado como instrumento de pressão, favorecimento ou captação de votos. 

No caso da mobilização entre estudantes da UFV, o ponto levado ao conhecimento das autoridades é a eventual relação entre a arrecadação, o deslocamento de eleitores e o apoio declarado a uma candidatura específica. A caracterização de eventual irregularidade, entretanto, depende da análise das circunstâncias concretas da iniciativa e da origem e aplicação dos recursos.

O Ministério Público foi procurado e informou ter ciência da situação e que providências seriam tomadas, sem detalhar, até o momento, qual procedimento será adotado ou se já existe investigação formal.

DCE e universidade

O episódio também provocou questionamentos sobre a utilização de canais e espaços relacionados ao movimento estudantil para atividades de natureza político-eleitoral. A mensagem recebida pelos estudantes está assinada pelo DCE-UFV e faz referência direta à organização do comitê de campanha dentro do ambiente universitário.

A participação política e a manifestação de preferências partidárias por estudantes não são, por si só, proibidas. O que está sob questionamento é a eventual utilização de estruturas, canais institucionais ou recursos públicos, bem como a possibilidade de oferta de vantagem ou transporte vinculada à escolha eleitoral.

O caso deverá ser analisado pelas autoridades competentes, que poderão verificar quem organizou a arrecadação, qual seria a destinação efetiva dos valores, como ocorreria o deslocamento dos estudantes e se houve vinculação entre a ajuda financeira e o voto em determinada candidatura.

O que diz a UFV

Questionada pela nossa reportagem, a Reitoria da UFV informou que determinou a abertura de uma sindicância investigativa para apurar o possível uso indevido do e-mail institucional em uma mobilização relacionada às eleições de 2026. Segundo a universidade, a mobilização é atribuída ao Diretório Central dos Estudantes (DCE), entidade de representação estudantil que possui personalidade jurídica própria e não integra a estrutura administrativa da instituição.

A reitoria afirmou que a UFV “não tem vínculo institucional com nenhuma manifestação, campanha ou mobilização político-partidária”, independentemente de serem promovidas por estudantes, servidores, entidades representativas ou grupos externos. Ressaltou ainda que eventual utilização de seu nome ou imagem nessas iniciativas não representa o posicionamento institucional.

A sindicância será conduzida no âmbito da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e deverá verificar se houve utilização indevida da ferramenta institucional. De acordo com a reitoria, os meios de comunicação da universidade, incluindo o serviço de e-mail, são destinados exclusivamente a finalidades acadêmicas e administrativas. A UFV não informou quem teria realizado o eventual disparo nem quais medidas poderão ser adotadas caso sejam confirmadas as irregularidades.

Em relação à campanha para transporte de eleitores, a universidade declarou que não organiza, não apoia e não mantém qualquer vínculo com iniciativas dessa natureza. A reitoria também destacou a autonomia administrativa e jurídica do DCE, deixando claro que a entidade não faz parte da estrutura da UFV.

A universidade ressaltou, por outro lado, que a instituição é um espaço de livre manifestação de ideias e de exercício da cidadania. Segundo a reitoria, essas manifestações devem ocorrer dentro dos limites legais e sem o uso inadequado de recursos públicos ou de instrumentos institucionais.

A UFV informou que continuará acompanhando o caso e poderá prestar novos esclarecimentos à medida que novas informações forem apuradas.