COLUNA | A química por trás dos perfumes
O mundo em que vivemos está repleto de odores. Alguns nos atraem, outros provocam repulsa; alguns despertam lembranças, enquanto outros passam quase despercebidos. O cheiro que sentimos resulta da interação de moléculas voláteis com receptores presentes em nosso sistema olfativo.
Ao longo da história, os seres humanos aprenderam a buscar na natureza substâncias com aromas agradáveis. Flores, folhas, sementes, madeiras e resinas foram algumas das primeiras matérias-primas da perfumaria. Quem nunca usou um perfume? Mas você já se perguntou de onde vêm as moléculas responsáveis pela enorme variedade de aromas encontrados em uma perfumaria?
A pergunta ganha interesse no Brasil, pois, em 2025, o país foi o segundo maior mercado mundial de fragrâncias, com vendas estimadas em cerca de R$ 50 bilhões. Por trás de cada frasco de perfume existe uma complexa combinação de substâncias, muitas provenientes, direta ou indiretamente, da natureza.
Durante séculos, algumas dessas matérias-primas vieram de fontes curiosas. O âmbar-cinzento, por exemplo, provinha do cachalote, enquanto o almíscar natural era obtido do cervo-almiscareiro. Substâncias de origem animal são hoje pouco utilizadas ou foram substituídas por moléculas produzidas em laboratório, por razões éticas, econômicas e de disponibilidade.
A relação entre a natureza e a perfumaria, porém, é muito mais antiga. Muito antes dos laboratórios químicos, diferentes povos já extraíam substâncias aromáticas para produzir perfumes e outros preparados. Os egípcios utilizavam óleos, resinas e extratos de plantas em práticas religiosas, cosméticas e funerárias. A química moderna veio depois, permitindo compreender a estrutura das moléculas responsáveis pelos aromas, reproduzi-las e modificá-las em laboratório. A natureza passou, assim, de fonte de matérias-primas a uma espécie de biblioteca química.
Os terpenos ilustram bem essa história. Presentes em óleos essenciais de diversas plantas, constituem uma importante fonte de matérias-primas para a indústria de fragrâncias. Entre eles está o α-pineno, um dos principais componentes da terebintina, obtida de árvores coníferas como o pinheiro. A partir dele é possível preparar o óxido de α-pineno, uma molécula que pode ser transformada em diferentes substâncias de interesse para a perfumaria.
Visando desenvolver tecnologia nacional, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, liderados pela química Elena V. Gusevskaya, transformaram o óxido de α-pineno em trans-pinocarveol e acetato de pinocarvila, compostos de interesse para a indústria de fragrâncias. Segundo Eduardo Nicolau, coautor do trabalho, a inovação veio do uso de um composto de cobalto utilizado em pequenas quantidades: um catalisador. A estratégia, alinhada à química verde, emprega um metal abundante e um solvente de menor impacto ambiental, convertendo matéria-prima renovável em produtos de maior valor agregado. O processo foi objeto de pedido de patente no Brasil, em razão de seu potencial de aplicação.
Essa pesquisa ilustra uma vertente da química que vem sendo desenvolvida no Brasil para transformar moléculas de origem natural em novas substâncias de interesse tecnológico. Em nossos laboratórios, pesquisadores procuram compreender a estrutura dessas moléculas e descobrir novas maneiras de aproveitá-las, com atenção à sustentabilidade dos processos.
A perfumaria mostra, portanto, algo essencial sobre a química: muitas vezes, uma grande inovação começa com uma molécula que a natureza já produziu. Cabe ao químico compreender sua estrutura, descobrir como transformá-la e encontrar novos caminhos para utilizá-la. Valorizar esse conhecimento significa também reconhecer a capacidade da ciência brasileira de transformar recursos naturais em conhecimento, tecnologia e inovação.
Da próxima vez que você abrir um frasco de perfume e sentir sua fragrância, lembre-se de que esse momento corresponde apenas a uma pequena parte de uma história muito maior. Por trás daquele aroma existem moléculas, plantas, descobertas e o trabalho de nossos químicos, que procuram transformar a riqueza molecular da natureza em novas experiências e aplicações.
Texto elaborado com a colaboração de Fábio G. Delolo, do Departamento de Química da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Saiba mais: Silva, M. M. B. et al. J. Catal. 2026, 453, 116562.
01 outubro de 2026



