COLUNA | A química invisível da máquina de lavar roupas

Milhões de pessoas utilizam diariamente a máquina de lavar roupas sem imaginar a complexidade dos processos químicos e microbiológicos que ocorrem em seu interior.

Poucos de nós higienizamos a máquina conforme as recomendações do fabricante. Como consequência, as roupas podem sair aparentemente limpas, mas sem cheiro de frescor, enquanto a máquina desenvolve manchas escuras provocadas pelo acúmulo de microrganismos. Se ela está constantemente em contato com água e detergente, por que precisaria ser limpa?

Em um artigo recente publicado na revista Antibiotics, pesquisadores ingleses revisaram dezenas de estudos sobre os processos químicos e microbiológicos envolvidos na lavagem de roupas. Por razões ambientais, econômicas e por mudanças nos hábitos de consumo, tem havido nos últimos anos uma tendência ao uso de ciclos de lavagem em temperatura ambiente. Nessa condição, parte dos microrganismos presentes nas roupas pode sobreviver à lavagem. Associada ao acúmulo de resíduos orgânicos, essa sobrevivência favorece a formação de biofilmes nas máquinas, responsáveis pelas manchas escuras no equipamento e pelo mau cheiro das roupas.

A formação desses biofilmes inicia-se com o depósito de resíduos orgânicos, minerais e componentes dos detergentes em diferentes partes da máquina. Com o tempo, essas substâncias formam uma fina película aderida às superfícies internas. Trata-se de um fenômeno essencialmente químico. Moléculas orgânicas adsorvem-se às superfícies plásticas, metálicas e de borracha, modificando suas propriedades químicas e físico-químicas. Em outras palavras, antes mesmo que as bactérias apareçam, a química já preparou o terreno.

Essa película cria condições favoráveis para a adesão de microrganismos. Uma vez fixados, eles passam a produzir substâncias poliméricas, que funcionam como uma espécie de cola biológica, formando estruturas conhecidas como biofilmes. Esses biofilmes se desenvolvem em locais constantemente úmidos, como as borrachas de vedação das portas e os compartimentos destinados ao detergente.

Esses microrganismos metabolizam componentes do suor, da gordura humana e de outros resíduos orgânicos, produzindo compostos orgânicos voláteis responsáveis pelos maus odores. Entre eles estão amônia, compostos sulfurados e diferentes ácidos orgânicos. São essas moléculas que podem fazer com que roupas aparentemente limpas não transmitam a sensação de frescor esperada.

Essas mudanças nos hábitos de lavagem representam um importante avanço do ponto de vista da sustentabilidade. O desafio agora é desenvolver detergentes e programas de lavagem capazes de conciliar economia de água e energia com a remoção eficiente de resíduos orgânicos e o controle da formação de biofilmes.

Nesse contexto, a recomendação de higienizar periodicamente a máquina ganha sentido. Produtos de limpeza, como a água sanitária, não atuam apenas eliminando microrganismos, mas também degradando resíduos orgânicos acumulados nas superfícies internas, dificultando a formação de biofilmes e reduzindo a produção das moléculas responsáveis pelos maus odores.

A máquina de lavar não é apenas um equipamento doméstico, mas um ecossistema onde a química e a microbiologia interagem continuamente. Compreender esse processo ajuda a explicar por que a manutenção periódica recomendada pelos fabricantes não é um mero detalhe, mas parte importante do funcionamento adequado do sistema.

 

 

Luiz Claudio de Almeida Barbosa

 é professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais

Belo Horizonte, 15 de julho de 2026