Maternidade possível: entre a culpa e o cuidado com a saúde mental
No mês de conscientização sobre a saúde mental materna, o artigo discute a culpa que atravessa a experiência de muitas mães e questiona a pressão pela perfeição na criação dos filhos. A reflexão defende uma maternidade mais possível, baseada em presença, vínculo e equilíbrio emocional
Maio é o mês das mães e, não por coincidência, também o mês dedicado à conscientização sobre a saúde mental materna: Maio Furtacor.
Neste momento, mais do que celebrar, é preciso também refletir sobre os desafios emocionais enfrentados pelas mulheres que maternam. Uma dessas dores, silenciosa e persistente, atende pelo nome de culpa materna.
Essa culpa não escolhe classe social, idade ou formação. Ela pode surgir pelo que foi feito, pelo que não se conseguiu fazer, ou simplesmente por não atender às expectativas, sejam elas reais ou idealizadas. É um fenômeno universal e multifatorial, que se manifesta em diferentes fases da maternidade e se intensifica a cada novo desafio do desenvolvimento infantil.
A era da informação trouxe avanços inegáveis, mas também efeitos colaterais importantes. O acesso quase ilimitado a teorias e orientações sobre criação de filhos oferece uma falsa sensação de controle. Diante de tantas possibilidades e abordagens, muitas mães se sentem ainda mais perdidas e a culpa cresce na tentativa de acertar sempre.
O excesso de teorias, muitas vezes conflitantes entre si, tende a aumentar a angústia. E nesse turbilhão, é importante lembrar: os filhos não precisam de mães perfeitas. Eles precisam de mães seguras emocionalmente, presentes na medida do possível, capazes de acolher e sustentar, mesmo em meio às próprias limitações.
Nesse processo, uma armadilha comum é tentar compensar as inseguranças com excessos - seja de atenção, de presentes, de permissões. Essa tentativa de preencher o que se entende como falha acaba distanciando pais e filhos da construção mais real e afetiva dos vínculos: aquela que admite imperfeições, limites e humanidade. A perfeição, afinal, é uma fantasia. E a ausência dela, longe de ser um problema, é fundamental.
O psicanalista britânico Donald Winnicott, referência mundial em saúde mental infantil, cunhou o conceito de “mãe suficientemente boa”. Para ele, a mãe ideal não é a que nunca falha, mas a que consegue estar presente com constância emocional, sabendo que até sua ausência é importante para o desenvolvimento psíquico do filho.
É a partir das pequenas frustrações, naturais e inevitáveis, que a criança cria recursos internos para lidar com a realidade. Isso só é possível quando os pais deixam de buscar a perfeição e passam a confiar mais em sua intuição, sensibilidade e vínculo com o filho.
Aceitar que ser “suficientemente bom” basta é um gesto de coragem e de amor.
Confiar no saber que se constrói na convivência diária e observar os sinais dos filhos com atenção pode ser o caminho mais seguro.
Porque, no fim das contas, eles serão sempre nossos maiores norteadores.
Carolina Albuquerque
Psicóloga Infantil – Vila Pupilo, Viçosa/MG
Psicóloga pela UFMG; Membro da La Cause des Bébés (Paris)
Instagram: psicarolalbuquerque
Contato: 31 99161-8667




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