COLUNA | A química invisível por trás da bola de futebol
Durante a Copa do Mundo, milhões de brasileiros discutem escalações, estratégias e o desempenho dos atletas, mas um personagem essencial do espetáculo passa quase despercebido: a bola. Presente em todos os jogos, ela também possui uma longa história de transformação. Assim como os atletas evoluíram ao longo das gerações, esse protagonista silencioso foi continuamente aperfeiçoado pela ciência. Hoje, uma bola de futebol incorpora conhecimentos de química, física e engenharia de materiais, transformando um objeto aparentemente simples em um equipamento de alta tecnologia.
Enquanto os torcedores acompanhavam os jogos, meu olhar se voltou para a bola e sua química. Segundo pesquisadores ingleses, a bola mais antiga preservada foi encontrada no Castelo de Stirling, na Escócia, e data de cerca de 1545, época em que o castelo era residência da rainha Maria Stuart. Ela era confeccionada em couro bovino curtido, costurada manualmente e inflada por uma bexiga de porco.
Os pesquisadores compararam essa bola histórica com os critérios atualmente utilizados pela FIFA para certificar bolas destinadas às competições oficiais. Esses testes avaliam características como esfericidade, ressalto, absorção de água, resistência e manutenção da forma. Como era de se esperar, a bola do século XVI estava muito distante dos padrões atuais, evidenciando o extraordinário avanço tecnológico ocorrido ao longo de quase cinco séculos.
A química teve papel decisivo nessa transformação. O couro é constituído principalmente por colágeno, uma proteína que possui afinidade pela água. Em partidas disputadas sob chuva, a bola absorvia umidade, tornava-se mais pesada e tinha seu comportamento alterado em campo. Além disso, as bexigas de origem animal dificultavam a obtenção de uma esfera perfeitamente regular.
A primeira grande revolução ocorreu no século XIX, quando Charles Goodyear, nos Estados Unidos, descobriu acidentalmente a vulcanização, processo no qual a borracha natural é aquecida na presença de enxofre. O resultado é um material muito mais resistente, elástico e estável. As bexigas de borracha vulcanizada passaram então a substituir as de origem animal, tornando as bolas mais duráveis e com comportamento muito mais previsível em campo.
Durante boa parte do século XX, o revestimento externo continuou sendo de couro. A partir da década de 1970, ele começou a receber camadas de poliuretano, reduzindo drasticamente a absorção de água. Os poliuretanos são polímeros sintéticos que podem ser formulados para apresentar diferentes propriedades, como flexibilidade, resistência mecânica, durabilidade e baixa absorção de água. Na década de 1980, o couro foi definitivamente substituído nas bolas de competição, e os novos revestimentos passaram a ser produzidos inteiramente com poliuretano.
Nos anos 2000, o revestimento das bolas passou a incorporar estruturas multicamadas contendo espumas sintáticas, materiais leves formados por milhões de microesferas ocas. Essa inovação permitiu controlar melhor a deformação da bola durante o chute, aperfeiçoando o toque e sua estabilidade em voo.
Outra mudança importante ocorreu no próprio desenho da bola. Durante mais de um século, ela foi composta por 32 painéis costurados. Hoje, graças aos avanços dos polímeros e dos materiais compósitos, esse número varia conforme o projeto aerodinâmico adotado pelo fabricante, de modo a alcançar o melhor equilíbrio entre precisão, estabilidade e controle.
As bolas atuais representam um dos exemplos mais sofisticados da aplicação da química no esporte. São constituídas por múltiplas camadas de polímeros de alto desempenho, tecidos técnicos, câmaras internas de borracha butílica e adesivos especiais. Em competições de elite, sensores eletrônicos instalados em seu interior registram velocidade, rotação e ponto de contato, auxiliando a arbitragem e a análise do desempenho dos jogadores.
Da bola de couro inflada com uma bexiga de porco, do tempo da rainha Maria Stuart, às modernas bolas inteligentes, passaram-se quase cinco séculos de inovação. Na próxima vez que assistir a uma partida de futebol, lembre-se de que, além dos craques em campo, há décadas de pesquisa em química, física e engenharia trabalhando silenciosamente para tornar possível esse espetáculo.
Para saber mais: HANSON, H.; HARLAND, A. The 16th century football: 450 year old sports technology assessed by modern standards. Procedia Engineering, 2012, 34, 373-378.
Luiz Cláudio de Almeida Barbosa
Belo Horizonte, 22 de julho de 2026

