COLUNA | ESCUTAR E APRENDER

Recebi, em 2010, pelas mãos da Irmã Maria Imaculada Resende Pereira, CDP, o presente que me enviou de Belo Horizonte a Irmã Dazir da Rocha Campos, então superiora-geral das Carmelitas da Divina Providência. Trata-se de uma obra do consagrado Frei Carlos Mesters, coadjuvado pelo psicoterapeuta Márcio Lúcio de Miranda: Jesus da Escuta Amorosa: As Bem-aventuranças ontem e hoje.

Em sua obra, os autores nos conduzem à contemplação de Jesus feito discípulo missionário do Pai, por meio de sua escuta amorosa, no diálogo paradigmático como Filho e Redentor da humanidade, na força do Espírito.

É muito agradável recordar um pouco o perfil de Carlos Mesters. Trata-se de um frade carmelita holandês que mergulhou na vida e na cultura do povo brasileiro. Dirige sua palavra com fluência e um sem-número de expressões populares, revitalizadas por aquele sotaque estrangeiro, mas com uma clareza meridiana que prende a atenção de seus ouvintes.

Tenho a alegria de conhecê-lo desde os tempos de Paraíso Terrestre, Saudade ou Esperança. De lá até aqui, pude saborear sua rica exegese, que aparece vez ou outra no texto-base do Mês da Bíblia e em seus vários livros sobre a exegese bíblica popular. É fascinante ler e/ou ouvir Frei Carlos Mesters, OC.

Logo no prefácio de seu livro Jesus da Escuta Amorosa, lemos:

“Escutar e aprender são sinônimos. Quem escuta aprende. A condição para escutar é fazer silêncio. Sem silêncio não se escuta. O que mais nos falta é o silêncio.

Muitos desejam que alguém os escute. Mas não encontram um ouvido aberto, disposto a acolher o grito calado do irmão, da irmã. As pessoas que não se comunicam transformam-se em ilhas, sem contato uma com a outra. Desaparece o diálogo.

O Servo de Deus, que foi a fonte de inspiração para Jesus, dizia assim: ‘Cada manhã, ele me desperta, para que eu o escute, de ouvidos abertos, como o fazem os discípulos’ (Is 50, 4). Quando o Servo pronunciou estas palavras, ainda não havia Bíblia. Só havia a vida, e havia nos olhos a fé para descobrir Deus na vida.

O que Jesus queria era reatar o diálogo com os que viviam isolados. O desejo dele era este: ‘O Senhor me concedeu o dom de falar como seu discípulo, para eu saber dizer uma palavra de conforto a quem está desanimado’ (Is 50, 4).” (Jesus da Escuta Amorosa. São Paulo: Paulus, 2010.)

Os autores partem do Salmo 146 (145), versículos 7 a 9, como uma oração feita dos pedaços da sabedoria popular, das conversas humanas e da escuta amorosa.

A grande reflexão sobre as Bem-aventuranças parte da passagem em que Jesus, na montanha ao lado norte do lago de Genesaré, tendo diante de si o belo panorama do mar da Galileia e, perto de si, os discípulos e o povo que o acompanhavam, disse: “Bem-aventurados os pobres em espírito...” (Mt 5, 1-12).

Os oito capítulos seguem o mesmo esquema, apoiado na ciência exegética e nas ciências humanas.

Ouvir a família humana com verdadeiro amor é tarefa missionária que pressupõe auscultar o coração de Deus em nossa condição de discípulos. Com o Senhor, aprendemos a todo momento: para que nossa vida seja plena, é preciso que aconteça uma relação de ajuda fundamentada na escuta amorosa.

Então perceberemos que, de fato, escutar e aprender são sinônimos.

Coluna publicada na edição 3696 do Folha da Mata - 29/10/2026. Se você quer ver com exclusividade, fique sempre de olho na banca mais próxima da sua região!