COLUNA | O que os dentes de múmias revelam sobre o passado

Uma dor de dente parece um problema do nosso tempo, mas acompanha a humanidade há milhares de anos. Os dentes que sobreviveram ao tempo fornecem pistas sobre as doenças de nossos antepassados, sua alimentação, suas condições de vida e até os tratamentos que receberam. Para investigar essa história, Roger Forshaw, pesquisador do Centro de Egiptologia Biomédica da Faculdade de Biologia, Medicina e Saúde da Universidade de Manchester, estuda há anos a história da odontologia na Antiguidade.

Em suas pesquisas sobre o Egito Antigo, civilização que floresceu por mais de 2500 anos antes da era cristã, o cientista discute os métodos empregados pelos egípcios para lidar com problemas e dores bucais. Essa investigação é hoje facilitada por tecnologias como a tomografia computadorizada, que permite examinar o interior de uma múmia intacta sem desenfaixá-la. Assim, técnicas médicas atuais ajudam a identificar vestígios de doenças e tratamentos de milhares de anos atrás.

Segundo os estudos de Forshaw, a incidência de cáries no Egito Antigo era surpreendentemente baixa, em virtude de uma dieta escassa em carboidratos fermentáveis e rica em alimentos fibrosos. Em contrapartida, o verdadeiro pesadelo dentário dos egípcios era o intenso desgaste dos dentes. A análise paleopatológica de 4.800 dentes antigos revelou que quase 90% apresentavam sinais evidentes de desgaste. A causa principal estava na própria alimentação: a farinha usada para fazer o pão diário continha partículas de areia do deserto, como quartzo e feldspato, além de resíduos das ferramentas de pedra e sílex usadas na colheita e moagem dos grãos. Essas partículas abrasivas desgastavam progressivamente o esmalte e a dentina.

No campo dos cuidados bucais, análises históricas e arqueológicas indicam que os sacerdotes do Egito Antigo tinham o hábito de mastigar pastilhas de natrão, uma mistura mineral natural composta por carbonato de sódio e bicarbonato de sódio, como parte de um ritual religioso de purificação da boca. É possível que essa prática tenha influenciado hábitos de higiene oral mais amplos, embora não existam evidências arqueológicas diretas de rotinas diárias padronizadas.

O trabalho de Forshaw também destaca que os egípcios recorriam a uma rica farmacopeia de preparações vegetais e remédios naturais descritos em papiros médicos, como o Papiro de Ebers, para tratar dores de dente, inflamações gengivais e afecções da mucosa bucal. Além disso, inscrições hieroglíficas do Império Antigo registram títulos honoríficos como “Supervisor dos Dentistas”, atribuído a Hesy-Re por volta de 2660 a.C., considerado o primeiro profissional ligado à odontologia cujo nome conhecemos. A existência de uma profissão odontológica independente, porém, permanece objeto de debate.

A descoberta mais fascinante veio com um estudo publicado em 2020 por Ioannis Pantazis e colaboradores, que utilizaram tomografia computadorizada multidetectores de alta resolução para analisar a múmia de Sekhem, um homem de 20 a 30 anos do período Ptolomaico (150–30 a.C.). Os exames revelaram uma grande cavidade de cárie entre o segundo pré-molar e o primeiro molar inferiores direitos, preenchida em vida com um material de baixa densidade, possivelmente linho. Esse achado representa o segundo caso descrito na literatura científica de preenchimento dentário em uma múmia egípcia e constitui uma evidência rara de intervenção terapêutica realizada em vida, provavelmente para proteger a polpa exposta e aliviar a dor provocada pelo contato com os alimentos.

Hoje, os avanços da ciência permitem tratar a dor, restaurar dentes e recuperar a função e a estética do sorriso. Mas talvez uma de suas demonstrações mais interessantes esteja justamente na capacidade de investigar o passado sem danificar os vestígios materiais que chegaram até nós: uma imagem obtida hoje pode revelar o tratamento realizado por alguém que viveu há mais de dois mil anos. Se ainda houver quem duvide de sua importância, talvez uma dor de dente seja um bom lembrete de que a ciência está presente tanto no alívio do sofrimento humano quanto naquilo que conseguimos descobrir sobre quem viveu muito antes de nós.

 

 

Saiba mais: FORSHAW, Roger. British Dental Journal, v. 240, n. 1, p. 45-50, 2026.

 

Luiz Cláudio de Almeida Barbosa

Belo Horizonte, 28 de outubro de 2026