COLUNA | ROSÁRIO EM PUNHO
Como decifrar o sentido do cortejo de milhões de pessoas, rosário em punho, nas madrugadas do Frei Gilson?
Percebi que são os mesmos que elevam preces por todos nós! Gente de fé, rosto de um Brasil que resiste a tantos embates. Pessoas que alimentam a nossa esperança porque não se curvam diante da insistência dos que desejam nos tirar a fé.
Não nos arrefecemos graças à onipotência suplicante estampada na vida e na missão da Mãe Aparecida. Sim! É ela que nos une e não nos deixa desfalecer. Levou a sério o presente que lhe deu, certa feita, a Princesa Isabel:
“Se eu não assumir o trono do Brasil, ó Mãe querida, aqui está a coroa que, uma vez posta em Vossa Fronte, está neste momento entregando-lhe este País ao Vosso inteiro reinado, pois assim eu sei que, com o Vosso Manto Sagrado, haveis de proteger e cobrir todos e cada um de Vossos filhos que de norte a sul, de leste a oeste desta Nação entoa Vossos louvores: ‘Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida, Salve a Senhora Aparecida!’”
Tudo começou com uma pescaria que fez transbordar o simples fato do encontro da imagem de Nossa Senhora nas águas do Rio Paraíba. Simples, porém, ao mesmo tempo, diferenciado, dado que a imagem foi alcançada pelas redes dos pescadores em dois momentos distintos: primeiro o corpo, em seguida a cabeça. O sinal se completa: nada tinham pescado até ali e, a partir do encontro com Nossa Senhora da Conceição, as redes ficaram cheias de peixes.
Mais do que o episódio ocorrido, Maria veio reescrever a História do Brasil. A mensagem que Deus nos revela, por meio de Nossa Senhora da Conceição, enegrecida pelas águas do leito do rio Paraíba do Sul, remete-nos à triste realidade da escravidão dos negros em nossa Pátria e do preconceito racial que persiste, sustentado pela ausência do verdadeiro amor ao próximo. Sua voz materna cala-nos a alma e elucida o discernimento para recordar que somos um povo de irmãos e irmãs. Nossa Senhora sai das águas e entra no coração do povo.
Da tenuidade do cotidiano brotam vivos sinais de Deus. Foi assim que, em 1717, três pescadores — Filipe Pedroso, Domingos Garcia e João Alves —, ao lançarem suas redes para pescar nas águas do Rio Paraíba do Sul, colheram a imagem de Nossa Senhora da Conceição, no lugar denominado Porto do Itaguaçu, no interior de São Paulo. A imagem, escurecida pelas águas, veio mostrar como Nossa Senhora está ao lado dos que sofrem, pois a escravidão grassava, ultrajando a dignidade de tantas pessoas.
Os inúmeros fatos que decorreram do episódio fizeram aquela devoção prosperar sobremodo. Por isso, em 16 de julho de 1930, o Papa Pio XI declarou e proclamou Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil.
Na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, depois de indicar a Virgem Santíssima como Mestra na contemplação do rosto de Cristo, São João Paulo II inseriu as Bodas de Caná como Segundo Mistério da Luz. Com isso, pode-se assegurar que Maria nos guia para Cristo, uma vez que disse: “Façam tudo o que Ele lhes disser” (Jo 2,5).
É a solidariedade da Mãe, ouvinte e testemunha da Palavra de Deus, levando-nos à Mesa do Pão Partilhado:
“Maria viveu a dimensão sacrifical da Eucaristia, desde a profecia de Simeão (Lc 2,34s). Ela nos ensina a colocar em prática o Evangelho: ‘Fazei isto em memória de Mim’ (Lc 22,19). No ‘memorial’ do Calvário, está presente tudo o que Cristo realizou na sua paixão e morte. Por isso, não pode faltar o que Cristo fez para com sua Mãe em nosso favor. (...) ‘Eis aí tua Mãe’ (Jo 19,26s). Maria está presente, com a Igreja e como Mãe da Igreja, em cada uma das celebrações eucarísticas” (Ecclesia de Eucharistia, 55ss).
A autêntica devoção a Nossa Senhora está centrada na Eucaristia e atualiza cotidianamente esta gratuidade.
Longe de ser uma piedade superficial, podemos afirmar que ela se tornou um lugar teológico de crescimento na fé. Os sinais demonstram a eficácia desta devoção, uma vez que quem tudo realiza é o próprio Senhor, através da onipotência suplicante de Nossa Senhora Aparecida, que a configura como Guardiã do Brasil.
No horizonte, vislumbramos tremulando a bandeira da esperança. Afinal, somos filhos da esperança, e a esperança é nossa arma de combate. A caminhada eclesial revela o constante surgimento de matizes que aperfeiçoam sua ação. É com este olhar que descortinamos novas descobertas para que a ação pastoral não desista de trazer frutos.
É tempo de dizer para nós mesmos que nunca podemos nos esquecer de que devemos ser uma comunidade de comunidades, capaz de abrigar o discipulado e a missão como pressupostos de fidelidade a Cristo.
Na cadência de nossos passos, outubro nos põe em festa. É o mês da Padroeira do Brasil. É a Bíblia que assegura, especialmente nos Evangelhos e em Atos dos Apóstolos, que Maria é presença na comunidade. Belo é o exemplo de sua presença junto à Igreja que nasce fiel aos ensinamentos dos Apóstolos, à fração do pão, à comunhão fraterna e à oração (At 2,42). Esta postura é contemplada na permanente atenção que devemos ter às orientações da Palavra e da Igreja, visando construir comunhão.
A oração de São Bernardo é um diapasão que afina o ritmo de nossos passos:
“Ó tu! Quem quer que sejas. Tu, que no mar tempestuoso desta vida, te achas arremessado entre vendavais e tempestades, olha a estrela, invoca Maria. Se a cólera, a avareza, as seduções da carne ameaçarem soçobrar a frágil barquinha de tua alma, olha a estrela, invoca Maria. Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, olha a estrela, invoca Maria. Seu doce nome esteja sempre em tua boca, sempre em teu coração. Se imitares os exemplos de sua vida, terás o amparo de sua intercessão. Se a seguires, não te perderás. Se a invocares, não desesperarás. Se nela confiares, não cairás. Se ela te proteger, nada terás a recear. Se ela te acompanhar, não te cansarás. Se ela estiver a teu lado, chegarás ao porto da salvação.”
Com o tema “Com Maria, em comunidade, conhecer e praticar a Palavra”, o Brasil, sob o Manto de sua Padroeira, faz ecoar em todos os recantos deste País continental:
“Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida. Salve a Virgem Imaculada, a Senhora Aparecida.”
De fato, Maria Santíssima é a nossa Mãe e Rainha mil vezes admirável, pois veio trazer-nos o auxílio da Divina Graça para quebrar os elos da corrente de uma cruel e inaceitável escravidão de nossos irmãos afrodescendentes.
O Brasil se reveste de tons quase mágicos, na mais genuína mística, fazendo um coro de milhões de vozes para dizer as razões de sua esperança com o ROSÁRIO EM PUNHO!



