COLUNA | FORMANDOS DE 1949

Nossa história começou quatro anos antes, pois, durante o curso, tivemos contato todos os dias, sobretudo no horário do almoço. Trabalhando de graça nos Correios e entregando telegramas a troco de umas gorjetas, eu os conhecia a todos: João Maria Bello Lisboa, José Mário Braga, José Paulo Ribeiro, Roberto Ferraiolo...

Foi com o desfile deles, calouros de 1946, que vi, no primeiro sábado depois da Semana Santa, minha primeira Marcha Nico Lopes. Cada um caracterizado da maneira mais engraçada, em fila dupla, até a Silviano Brandão, onde houve, no desenrolar do papel higiênico, o discurso bem-humorado nas gozações aos colegas, aos servidores, aos professores, à direção da “Escola” e às figuras da cidade.

Lógico que não vi o baile à noite, no Salão Nobre, quando eles foram alforriados e deixaram de ser calouros.

Tenho a imagem de cada um deles naqueles meses do trote:

  • Cabeça permanentemente raspada, sem possibilidade de usar chapéu, boné, boina, gorro, enfim, qualquer protetor para a careca na já fria Viçosa pré-inverno;

  • Montículo de cabelo amarrado a um barbante preso ao pescoço;

  • Troca entre nomes e apelidos (nome: Pitanga; apelido: Ivan Belfort Shalders);

  • Proibido de namorar (o calouro provava do nosso fel);

  • Só entrava no refeitório de gravata e paletó... ao avesso;

  • A cada encontro, saudava o veterano pelo nome, fazendo continência: “Curuquerê, Augustíssimo, Moacir Maestri!”;

  • Aos sábados, após a Reunião Geral no Salão Nobre, entre o diretor, os professores e os alunos, havia a sessão do tribunal no gramado em frente ao alojamento, em que eram acolhidas as queixas mais esdrúxulas contra o calouro. A sentença era o inexorável banho, com roupa e tudo, numa torneira que fazia um lamaceiro dos diabos:

  • Um banho no Papangu, porque ele chiou o “s” ao pronunciar o plural de “má”.

  • Um banho no Pai d’Égua, porque o patureba se diz patense.

  • Um banho no Abobrinha, porque ele anda sonegando gorjeta ao menino dos telegramas.

Papangu era o Luiz Noguchi (o primeiro da turma a falecer); Pai d’Égua é o Lourival Pacheco, que aposto estará na festa puxando mais um “A turma avança, enquanto o bicho berra, é Deus no céu, ESAV aqui na terra!”; Abobrinha é o Fernando Procópio Scarlatelli, que, pelos quatro anos afora — até entregar-lhe um montão de telegramas em pleno baile da formatura, em 1949 —, sempre me afirmou:

— Devo e não nego; pago quando puder.

Vou me encontrar com ele nesta “Reunião dos ex-Alunos” e já lhe adianto a pergunta, sessent’anos depois:

— Abobrinha, você já está podendo?!

Publicado na edição de 2.128 de 11/12/2009