COLUNA | Eis que o semeador saiu a semear... e a semente caiu em boa terra (Mateus 13: 3-8)

Quem me contou a história foi a professora Maria Noêmia Ferreira Lopes, que acompanhou grande parte da trajetória do religioso até os momentos finais de sua vida. Seguem pequenos detalhes de um nobre semeador.


Antônio Mendes nasceu em Viçosa em 03 de agosto de 1914, quando a estrada de ferro veio para o centro da cidade com a inauguração da Estação Ferroviária (aquela que é hoje a Estação cultural da praça Maestro Hervé Cordovil). Sempre lutou, não só pela salvação das almas, mas, também, pela promoção humana, saúde e, sobretudo, educação. Faleceu em 22 de janeiro de 2002.


Era admirado também pelo tratamento que dava às pessoas, especialmente as mais simples. A todos chamava de ‘Doutor’, pois para ele, "cada um é Doutor na sua especialidade”.


Filho de Antônio Ferreira Mendes e Bárbara Simonini Mendes, logo cedo, trabalhou na farmácia do Benjamin Araújo, onde aprendeu os princípios da enfermagem, fazendo curativos e aplicando injeções. 


Iniciou a vida religiosa em 1929, no seminário de Mariana onde nos horários de recreio dividia seu tempo entre as atividades de enfermeiro e jogador de futebol. Terminou o curso de Filosofia em 1934 e em 1938, o curso de Teologia. Foi ordenado presbítero em 8 de dezembro de 1938 pelo então arcebispo de Mariana, Dom Helvécio Gomes de Oliveira. Três dias após, rezou primeira Missa em Viçosa. Em   1993, Dom   Luciano Mendes de Almeida concedeu-lhe o título de Cônego. Bacharelou-se também em Direito, na UFJF (Universidade   Federal   de   Juiz   de   Fora), em 1965.


Foi vigário em várias cidades e, em   1950, criou a Capelania   da   Uremg (Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, hoje UFV), fundando a Capela de Santo Tomás de Aquino, da qual foi capelão de 1950/85, quando se afastou por motivo de saúde. A Uremg tornou-se assim, a primeira universidade pública brasileira a ter assistência religiosa própria. Em 1952, fundou, com estudantes e professores, a Conferência Vicentina de Santo Tomás de Aquino, também a primeira que se tem notícia no Brasil, no meio universitário.


Com seus confrades realizou a duplicação da Vila Vicentina da Rua dos Passos e adquiriu   o   terreno   na   Rua   Santana   nº 1000, para   a   construção   de   um   centro   de treinamento. Organizou, ainda, a Semana Ruralista   para   padres   e   freiras, levando princípios de agricultura, de alimentação e de higiene para as populações mais simples do interior.


Assim, dividia seu tempo seu tempo entre a Capelania, administração (Diretoria, Chefia de Departamentos e participação em órgãos colegiados) e ensino, ministrou aulas nos cursos   de   Economia   Doméstica, Administração   do   Lar, Agrotécnico, Engenharia Florestal e Coluni (Colégio Universitário).  


Enquanto sacerdote, deu toda atenção aos jovens e, a partir da Conferência Vicentina, criou outros movimentos como o grupo de oração "Fermento", a Renovação Carismática Católica em Viçosa e outros mais, de onde saíram vocações. Com um grupo de jovens, fundou a comunidade "Cenáculo do Senhor", na Fazenda   Antuérpia   Mineira, cujos   membros, além   de   estudar, trabalhavam   e convertiam muitas pessoas, não só nas redondezas, mas em várias cidades do Estado. Desse grupo também saíram os Padres Paulo Nobre, Ronaldo Chaves e Walter Jorge.


Quando orientador do grupo da Renovação Carismática, foi criado o "Encontro de Carnaval", hoje, "Seara", que ultrapassou os limites de Viçosa e de Minas Gerais. 


Preocupava-se   com   a   assistência   aos   padres   mais   velhos   e   desamparados, sonhou criar um local para acolhê-los, chegando a ampliar a casa que herdara, na Travessa Simonini número 40, para este fim.


Mas sua história consolidou-se na educação. No início da década de 60, com a colaboração da parte americana do Projeto Purdue/UREMG, de alguns professores e estudantes, iniciou o trabalho de extensão cultural de maior alcance até hoje realizado, fundando, organizando, registrando e até dirigindo, nada menos de dezessete ginásios na Zona da Mata de Minas Gerais e vizinhanças, como o Ginásio Raul de Leoni, em Viçosa. 


Outros mais foram fundados, da Bahia à divisa com São Paulo. Todas as noites saiam três ou mais veículos com estudantes ‘professores’ para as aulas nas cidades próximas. É notório o impulso que os ginásios deram às respectivas comunidades e, alguns deles, hoje compõem a rede oficial. 
Foi mentor e membro fundador da Academia de Letras de Viçosa; um dos idealizadores e batalhador pela construção do Hospital São João Batista; e vice-prefeito da cidade nas administrações de Moacir Andrade e Antônio Chequer (primeira gestão).


Criou a Editora Folha de Viçosa, responsável além do jornal, pela impressão dos primeiros livros em Viçosa. Mas isso é assunto para a próxima coluna.