COLUNA | O Canivete
Primeiro há de se explicar para os meninos e meninas da cidade, e quiçá do campo moderno, o que é um carro de boi -apesar de que, espertos, eles seguirão direto para o google se ninguém falar o que é: o carro de boi é uma espécie de carretinha, dessas que a gente vê alguns veículos motorizados puxando por aí. Só que quem puxa são os bois. As rodas são de madeira, mais largas, mais finas, sem pneus, mas com um aro de borracha(ou de metal) circundando as bordas. O danado (do carro) gosta de cantar durante a viagem. A música, depende do estado de espírito de quem viaja nele, ou o vê passar. Para quem não tem espírito nem estado, é apenas um som estridente.
A casa era de pau-a-pique e coberta de sapé, uma espécie de capim que cumpre muito bem a sua função de telha. Bem mais rústica do que essas que, de quando em vez, aparecem no Globo Rural e outros programas do gênero. Alguns a conhecem como taipa de sopa- po, pela forma como as paredes são levantadas: ficam-se os esteios de madeira, entrelaçam-se varas de bambu, amassam-se o barro e, a seguir, duas pessoas, uma do lado de dentro e outra do lado de fora, aplicam o barro. De vez enquanto vai uma pelota na cara de quem apara o “sopapo” (o barro que é jogado na estrutura), mas no fim, a vivenda fica prontinha para se viver... em casa de sapé não se mora... vive-se!
E ali vivíamos. Nosso pai, nossa mãe e os quatro filhos e me parece que todos éramos felizes. Eu era muito novo para saber, só sentia que era bom. De uns tempos papai, começou a sentir umas dores no peito. Deveria ser doença, porque saudade não era. Mamãe, que vivia cantando, diminuiu a voz...era quase um sussurro. E foi assim que, antes do raiar de um distante dia de novembro, alguns homens chegaram lá, pegaram o papai com cama e tudo e partiram em direção à estrada. Mamãe seguiu o cortejo e, nós, seguimos mamãe.
Na estrada, o carro de boi, bem diferente dos dias que puxava milho do roçado, naquele dia estava bem confortável, cercado com uma esteira de bambu presa nos fueiros e, inclusive, com uma “capota” de lona, caso chovesse no percurso. Fomos divididos em dois filhos de cada lado do pai. Antes de embarcar, mamãe olhou pela última vez a casa da sua história. Era um olhar que só mais tarde descobri ser de adeus. A viagem começou. Era de poucas léguas, mas carro de boi não tem pressa. O danado seguia cantando. Era um canto diferente e eu era bom de ouvido. Lá na roça, era um barulho alegre que se misturava à cantilena dos trabalhadores. Agora, parecia um gemido... um lamento.
Chegamos no centro de Guaraciaba, que o pessoal chamava de rua. O dia acabara de amanhecer, mas muita gente já tinha amanhecido. A farmácia estava aberta. Apeamos e papai foi novamente carregado. Sem a cama. Sentaram ele em banco perto da porta, de onde dava para ver o movimento. Era ali que ficaríamos à espera do médico que estaria na cidade naquela manhã. Todos juntos! O atendente deu uma injeção para o doente suportar a dor e parece que funcionou. De repente, papai pendeu a cabeça sobre os ombros de mamãe... a dor passara de todo... só para ele!
- Foi assim que o nosso irmão se apoderou de toda a herança material que papai nos legou. A outra, chamada saudade, dividimos irmãmente!
