COLUNA | Cozinhar em panela de ferro ajuda no combate à anemia?
A anemia continua sendo um importante problema de saúde pública no Brasil e no mundo, especialmente entre mulheres em idade reprodutiva e crianças. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicadas em 2025 com dados até 2023, indicam que 30,7% das mulheres de 15 a 49 anos no mundo tinham anemia. Quando escrevi recentemente nesta coluna sobre os efeitos de cozinhar em panelas de alumínio e de teflon, muitos leitores me perguntaram: e cozinhar em panela de ferro, é bom para combater a anemia?
A deficiência de ferro é a causa mais comum de anemia, segundo a OMS, mas não é a única. Anemias também podem resultar da falta de outros nutrientes, infecções, inflamações, perdas de sangue e fatores genéticos. Por isso, é importante identificar sua causa antes de iniciar qualquer suplementação de ferro, que deve ser feita com orientação profissional.
Lembro-me de, quando criança, ver meu pai chegar em casa com envelopes de sulfato ferroso preparado em farmácia de manipulação. O pó era misturado ao feijão. Se essa prática era realmente eficaz, não posso dizer, pois nem todo o ferro ingerido é absorvido pelo organismo. No caso do ferro, essa biodisponibilidade depende de sua forma química e também da composição da refeição.
A pergunta dos leitores também tem sido investigada por cientistas no Brasil e em outros países. Há décadas, estudos procuram verificar se cozinhar em panelas de ferro pode aumentar a ingestão desse elemento e reduzir a anemia ferropriva. Um fato está bem estabelecido: durante o cozimento, uma pequena quantidade de ferro pode passar da panela para o alimento, especialmente em preparações ácidas. A quantidade transferida depende também do tempo de cozimento, do tipo de alimento e das condições de uso da panela.
Estudos realizados em diferentes populações mostram que utensílios de ferro podem aumentar a quantidade de ferro nos alimentos e, em algumas situações, melhorar indicadores de anemia. No Ceará, crianças de 4 a 5 anos consumiram, durante 16 semanas, alimentos preparados em panelas de ferro ou de alumínio. Entre as dez crianças anêmicas que usavam panelas de ferro, nenhuma permaneceu anêmica ao final do estudo. Os autores consideraram que o uso de panelas de ferro poderia ser uma estratégia para prevenir e tratar a anemia por deficiência de ferro em países em desenvolvimento. O resultado, porém, deve ser visto com cautela, devido ao pequeno número de participantes e à ausência de diferença significativa na concentração média de hemoglobina entre os grupos.
Como alternativa às panelas de ferro, o pesquisador canadense Christopher V. Charles estudou no Camboja, país com alta incidência de anemia, o uso de um pequeno lingote de ferro colocado na panela durante o preparo das refeições. Ao perceber o significado cultural do peixe naquela comunidade, teve a ideia de produzir o lingote nesse formato. A ideia foi posteriormente transformada em produto comercial pela empresa Lucky Iron Fish.
Os primeiros trabalhos de Charles mostraram que o peixe de ferro podia aumentar a disponibilidade desse elemento nos alimentos. Pesquisas posteriores, porém, produziram resultados menos consistentes. Em um ensaio clínico no Camboja com mulheres anêmicas, o produto não aumentou significativamente a concentração de hemoglobina após 12 meses. Além disso, apenas 9% das participantes apresentavam deficiência de ferro, sugerindo que parte importante da anemia tinha provavelmente outras causas.
Um artigo científico publicado em 2026 por Julia Dorf e colaboradores analisou os resultados de diferentes pesquisas sobre o uso de lingotes de ferro e encontrou resultados variados. Em alguns, houve aumento da hemoglobina e redução da anemia; em outros, esses efeitos não foram observados. Segundo os autores, não se pode afirmar com segurança que os lingotes previnam ou tratem a anemia por deficiência de ferro.
Então, cozinhar em panela de ferro ajuda a combater a anemia? Pode aumentar a quantidade de ferro nos alimentos, mas não pode ser considerado, por si só, um tratamento. A resposta depende da causa da anemia, da quantidade de ferro liberada e de quanto o organismo consegue absorver. É justamente para responder perguntas como essa, confrontando resultados e testando aquilo que parece funcionar, que a ciência existe e trabalha a nosso favor.
Saiba mais: DORF et al. Discover Public Health, v. 23, art. 1162, 2026.
Luiz Claudio de Almeida Barbosa
Belo Horizonte, 08 de outubro de 2026



