COLUNA | A faca
Quando eu caminhava para os seis anos de idade – hoje já passo dos setenta – mamãe resolveu mudar de mala e cuia para as terras de nosso avô, que ficava ali pelas bandas de Caratinga, num arraialzinho chamado Santa Bárbara.
Fomos de trem. Segunda classe. Assentos de madeira. Mas ninguém ligava. A gente criança não percebe essas diferenças que separam os que têm dos que não têm. No mais, uma mesma máquina puxava a todos, os primeiros e segundos classistas. Era uma poderosa “maria fumaça” que entre umas baforadas e outras soltava estridentes urros.
Vovô nos esperava na estação como uma charrete. Foi mais uma viagem. Essa, ao som dos relinchos do cavalo, que de vez em quando marcava território. Quando levantava o rabo, não tinha nenhuma cerimônia em liberar os seus gases que quase sempre era um aviso que coisas piores viriam. Nesse batido de puns e relinchos, chegamos ao nosso destino.
No primeiro dia, nada de novo aconteceu. No segundo, era véspera de Natal e as mulheres, minha vó, a tia e, agora, mamãe, preparavam os pratos para a consoada. Como diria o Pélmio Simões, do latim consolata, feminino de consolatus - que pode até ser outra coisa -, mas para nós, simples mortais, apenas uma ceia na noite especial do nascimento de Cristo.
Bem! Perto de quem brinca e longe de quem trabalha – parece tirada de baiano mas é um dito popular que nos aconselha a não encher o saco de quem trabalha. As mulheres na cozinha e as crianças – eu, dois primos e duas primas - que regulavam idade, com pequenas diferenças - brincávamos um pouco além, nas proximidades do engenho, onde se fabricava rapadura, uma parente bem próximo do açúcar mascavo. Meu avô não fabricava aguardente, mas eu já apreciei muito. Não sei de onde veio a herança.
Bom, na estrutura do engenho havia uma peça de madeira de lei que sustentava a cumeeira do telhado que cobria o grande tacho de cobre. Na ponta da viga de madeira que sobrava além do esteio, ficava uma faca amolada, usada apenas em algumas ocasiões. Enquanto brincávamos, vi que minha avó se aproximou do engenho e voltou para a casa grande sem dizer nada.
Logo a seguir, nossas mães, a minha e a tia, chamou-nos com um comando que conhecíamos bem: passa, já! - Passamos.
Na sala, cada uma com uma vara. Apanhamos igual gente grande sem ao menos saber o porquê. Os meus irmãos Vicente e o Zé do Pedal também estavam lá, mas ainda não tinham idade suficiente para apanhar feito gente grande. Já, as primas, não sei por que foram poupadas.
No intervalo, entre uma varada e outra, a pergunta: cadê a faca? – Ninguém sabia e o couro comia. Se não fosse a intervenção de minha avó, acho que estaríamos apanhando até hoje: “Deixem os meninos sair para mostrar onde esconderam a ferramenta, senão à noite não vai ter galinha na ceia”, ponderou. Até então não sabíamos o destino nem da faca, nem das galinhas.
Aberta a porta, saímos da sala. Ainda com o lombo quente, deparamos na estrada com a figura de meu avô que vinha assoviando enquanto descascava uma suculenta cana caiana... com a faca! Para adoçar a sua boca ele deixou um amargor nas nossas.
Desde então descobri que a raiva tem um gosto amargo e nunca mais a tive: de nada e de ninguém.

