CIDADE

Aglomeração na Santa Rita

Moradores pedem socorro e órgãos se manifestam


Publicado em: 06/05/2022 às 16:16hs

Aglomeração na Santa Rita

Uma multidão ocupou a avenida Santa Rita e parte da rua Padre Serafim na noite do último domingo, 1º. Eram jovens, em sua maioria estudantes universitários, comemorando o retorno a Viçosa após dois anos de pandemia e de aulas remotas.

Calouros e veteranos se reencontraram na noite que antecedeu a retomada das atividades presenciais da UFV. A polícia militar estimou a presença de 2 a 3 mil pessoas no local após a meia-noite e o evento se estendeu durante toda a madrugada de segunda-feira.

Na segunda-feira, quem passou pela região lamentou a cena caótica. A avenida amanheceu com muito lixo nas ruas, calçadas e jardins. As poucas lixeiras não deram conta da quantidade de latas e garrafas de bebidas consumidas no local.

A aglomeração era esperada e foi prevista pelo Poder Público Municipal, que afirmou ter feito o que estava ao seu alcance. Mas, os moradores da avenida e do entorno cobram, das autoridades, medidas para que seus direitos sejam preservados, principalmente o direito de poder dormir e descansar em silêncio, garantido pelo Código de Posturas do Município de Viçosa, que dedica um capítulo inteiro a questões de ordem, decoro e sossego públicos, já que o problema já vinha acontecendo antes do retorno das aulas presenciais da UFV, e, agora, foi agravado. 

O Folha da Mata ouviu relatos de diversos moradores da região, que consideram legítima a comemoração dos estudantes. No entanto, eles questionam o local e as circunstâncias em que a festa é realizada.

 

INDIGNAÇÃO

Denyse Schetini, 68 anos, morava em Santos (SP), mas voltou para Viçosa há cerca de 5 anos para cuidar da mãe, de 95, que mora na avenida. Ela é presidente da Associação de Moradores da Avenida Santa Rita e é uma das moradoras que defende a existência de um local próprio para esse tipo de evento. “Eu já fui jovem, reconheço a necessidade de festejar, no entanto, a administração da cidade, junto com a UFV - a qual não retiro a responsabilidade - devem, juntas, organizar algo que atenda essa necessidade”, opinou Denyse. Ela defende que uma solução seja encontrada às pressas e citou um outro evento que pode ocorrer na avenida no próximo dia 14. 

Ainda em seu desabafo, Denyse relata que teve que trocar as janelas da frente da casa por outras feitas com material antirruído, mas não adiantou: “Morar ultimamente na Santa Rita é conviver com uma situação drástica, porque você não tem qualidade de vida, você não consegue dormir, urinam em nossas calçadas, em nossas portas, enfim, é uma falta de respeito em todos os aspectos”.

A opinião de Denyse é compartilhada pelo tabelião e ex-vereador Francisco Machado Filho, que possui imóvel e parentes que moram na avenida. Ele classificou como “um desmando total” o que vem acontecendo na avenida Santa Rita, citando situações como sexo explícito, tráfico e uso de drogas, abuso de bebidas alcoólicas, som automotivo, depredação de patrimônio privado e diversos outros atos ilícitos.

“É realmente lastimável o que está acontecendo, traz consequências terríveis para a cidade, é vergonhoso e um mau exemplo para os mais novos”, disse Machado, que acredita na necessidade de uma posição mais definida do Executivo Municipal. Para isso, Machado propõe que seja replicada em Viçosa uma legislação que é comum em municípios do estado do Paraná, que proíbe o consumo de bebida alcoólica em logradouros públicos. “Estou preparando a minuta de um projeto de lei para submeter à câmara sobre esse assunto. Se acharem por bem aprovar, vai melhorar muito porque o Executivo vai ter uma lei para se basear e fazer cumprir”, disse Machado.

Machado também acredita na necessidade de uma parceria entre o Poder Público Municipal e a UFV para a organização desses encontros estudantis, e lembrou da existência do Espaço Aberto de Eventos, criado na época do Carlos Sigueyuki Sediyama. “A juventude precisa sair, beber, bater papo, mas não ocupando uma rua inteira, sem organização, impedindo o trânsito e o acesso às residências. É necessário que haja uma regulamentação”, concluiu Francisco Machado.

 

HOTEL “ILHADO”

Uma comitiva do governo da Nigéria que participava de um simpósio na UFV teve dificuldade para deixar o Hotel Alfa, localizado na rua Padre Serafim, na manhã do último sábado. A comitiva foi hostilizada por algumas pessoas que passaram a noite bebendo na avenida. O relato é do empresário Nelson Maciel, do grupo CPT, ao qual o hotel faz parte.

Nelson disse à reportagem que as aglomerações na avenida Santa Rita e entorno “afetam violentamente” o hotel: “Muitas pessoas e grupos estão deixando de ficar no hotel por conta da bagunça, que perturba muito. Aos finais de semana, as pessoas que saem do hotel e chegam mais tarde, de noite, não conseguem entrar. Até o restaurante que temos já perdeu clientes porque o pessoal tem medo de ir e depois não conseguir sair”, relatou Maciel.

O empresário também acredita que a UFV precisa contribuir mais no sentido de buscar uma solução para a necessidade dos estudantes. “A universidade tem estrutura para a realização de eventos de forma segura e organizada e não pode mais continuar transferindo a responsabilidade para a cidade”, opinou o empresário, que afirmou que um grupo de empresários estaria disposto a investir na melhoria da estrutura do Espaço Aberto de Eventos da UFV, localizado próximo ao Tiro de Guerra.

 

BARES

Neste fim de semana, banheiros químicos foram instalados na avenida e na praça Cristóvão Lopes de Carvalho (Rua Padre Serafim). O Folha da Mata apurou que os equipamentos foram alugados pelos bares da avenida, cujos proprietários estão preocupados com o uso indevido das paredes dos imóveis da região como banheiro.

A reportagem ouviu o representante da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) - Regional Serras de Minas, Denis Lourenço, que também possui uma lanchonete na avenida, que complementou a informação dizendo que o aluguel dos banheiros foi pago pelos bares, porém, ocorreu via prefeitura, que inclusive indicou os locais onde os equipamentos poderiam ser instalados.

Denis avaliou como preocupante a situação da avenida Santa Rita, mas salientou que os estabelecimentos têm cooperado com a prefeitura e respeitado as legislações vigentes.

 

A PREFEITURA

A chefe do Departamento de Fiscalização da Secretaria de Fazenda, Layra Santos, informou à reportagem que seu departamento, em parceria com a Diretoria de Trânsito e a Polícia Militar realizou uma operação, classificada como “preventiva”, no intuito de coibir práticas de perturbação do sossego.

De acordo com a chefe da fiscalização, durante a operação foram apreendidas seis caixas de som portáteis e também caixas de bebidas que estavam sendo comercializadas na rua, o que é proibido pelo Código de Posturas. Layra relatou também que a Diretran realizou blitzes no sábado e no domingo no intuito de coibir a presença de som automotivo.

Sobre os banheiros químicos, Layra explicou que foi um pedido da Abrasel e que a prefeitura autorizou a concessão do uso temporário do espaço público. Ela elogiou a iniciativa.

A instalação de gradis ao redor dos jardins também foi uma ação a pedido do Departamento de Fiscalização. Layra aproveitou para explicar sobre o banco quebrado da avenida, cuja foto viralizou nas redes sociais. Segundo ela, o banco já estava quebrado antes da aglomeração daquele dia, resultado de um acidente com um maquinário da própria prefeitura.

 

A POLÍCIA MILITAR

O Folha da Mata levou as reclamações dos moradores ao comando da 10ª Cia Independente de Polícia Militar. O tenente Paulo Roberto, assessor de comunicação organizacional, confirmou a participação da PM na operação organizada pelo Departamento de Fiscalização da Prefeitura.

De acordo com o tenente, a PM esteve presente desde as primeiras horas da aglomeração, em apoio aos órgãos da prefeitura. Afirmou também que a PM realizou rondas nas ruas do entorno, no intuito de coibir crimes violentos, como roubos, assaltos e estupros. Segundo ele, a estratégia deu certo, pois não houve registros desse tipo de crime no último final de semana naquela região.

O tenente aproveitou para explicar que, quando a PM é acionada para comparecimento em ocorrências de atos infracionais, é necessário que haja uma vítima para a finalização da ocorrência. Segundo ele, na maioria dos chamados que a PM atende via 190, a vítima não deseja se identificar, impossibilitando o registro da ocorrência.

A exceção é válida quando se trata de som automotivo. Segundo o tenente, nesse caso, não é necessário ter vítima para a PM atuar. No domingo, segundo o tenente, foram registrados diversos autos de infração de trânsito durante as blitzen realizadas em parceria com a Diretran.

 

REITOR DA UFV

O reitor da UFV, professor Demetrius David da Silva, foi procurado pela reportagem e, respondendo sobre as cobranças por maior participação da UFV, ele lembrou da participação ativa da universidade no combate à pandemia e declarou que a universidade está aberta ao diálogo.

A respeito da aglomeração e da falta de espaços adequados na cidade, o reitor declarou: “considerando a duração de mais de 2 anos da pandemia, haveria tempo suficiente para que políticas públicas, por iniciativa do poder público municipal, fossem planejadas e implementadas visando a minimização dos problemas decorrentes da aglomeração de jovens cidadãos viçosenses, e não apenas de estudantes da UFV. E, neste contexto, como de costume, a UFV estaria e está à disposição para colaborar no que for necessário”.

Demetrius ressaltou ainda é necessário levar em conta que os estudantes de Viçosa, não apenas da UFV mas também das outras universidades da rede privada, “são a força motriz de nossa cidade e não podem ser demonizados, como alguns mais radicais afirmam”. 

O reitor finalizou lembrando que, ao longo dos últimos 2 anos, houve um clamor de grande parte da comunidade viçosense pelo retorno das atividades presenciais e, consequentemente, dos estudantes, pois sem eles as atividades econômicas do município ficam totalmente comprometidas.