CIDADE

ESCOLHER A MELHOR PARTE

Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*


Publicado em: 15/07/2022 às 13:56hs

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Nas pessoas de Marta e Maria o Evangelho nos mostra que o cristão deve servir e rezar (Lc 10,38-42). Marta é aquela que sabe ser eficiente, realiza uma tarefa útil, enquanto Maria sabia empregar o tempo escutando Jesus, a Palavra de Deus. Deste modo uns são mais sensíveis aos bens materiais imediatos e outros aos bens espirituais e se identificam com uma ou a outra destas personalidades. Segundo os bons hermeneutas, quando se faz esta análise simples, assaz simples, a reflexão de Jesus a Marta é incompreensível, talvez injusta: “Maria escolheu a melhor parte e ela não lhe será tirada”.  Segundo esta interpretação simplista então Jesus toma partido de uma contra a outra e, neste caso, esquece o alimento que terá para comer. Se a contemplação é superior à ação poderia dizer Marta, enquanto Jesus e Maria curtiam as realidades espirituais. Entretanto, várias vezes Jesus nos convida a uma caridade ativa, sobretudo quando nos previne: “Não é aquele que diz Senhor, Senhor que entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21). É que Jesus repreende Marta não porque ela está agindo, mas porque ela estava agitada. “Marta, Marta, tu te preocupas e te agitas por muitas coisas” Agir e agitar não é a mesma coisa. Como, aliás, nada fazer não é forçosamente rezar e, menos ainda, ser contemplativo. Isto porque em toda a vida uma só coisa é necessária, como ressalta Jesus e é porque Maria ao contrário de Marta sabe colocar em prática a única coisa necessária, que o Senhor a louva. Entretanto, qual é esta coisa única e necessária? Marta nos ajuda a melhor compreendê-la. O Evangelho diz que a atitude de Marta é estar ela absorvida pelas muitas tarefas do serviço, ela se agita e está afobada e até protesta contra sua irmã. Ela se concentrava unicamente no que tinha a fazer, no que tinha a organizar e esquece a razão de ser de todo aquele serviço. O valor de nossas ações deve ser, por uma grande parte, a resposta a estas questões “porquê e para quem”. Se nosso olhar se fixa sobre a materialidade de nossas obras, se perdemos o sentido, a finalidade de nosso trabalho, de nossos ofícios, então se corre o risco de ser absorvido pela extensão de nossas tarefas e ficar desanimado pelo incessante recomeço de cada hora numa rotina monótona e sem significado. Esquecendo-se a razão de ser de determinado serviço, ou seja, o amor a Jesus, vem a agitação. Marta, como foi dito, não agia, estava, isto sim, agitada e protestava veem entente, “isto não é equitativo, somente eu a trabalhar”. Não fazia, assim, um julgamento imparcial sobre os que a rodeavam. A discórdia se instalava entre ela e sua irmã, elas que deveriam estar unidas. Perdendo o sentido de seu serviço, Marta pedia também a alegria e a paz interiores. Entre se agitar ou escutar tranquilamente a Palavra de Deus a melhor parte é facilmente discernível.  Não se trata no Evangelho de hoje de descrever a figura do cristão ativo e a do cristão contemplativo, opondo-os entre si, mas de nos colocar em guarda contra a perda do sentido que nos faz perder o fundamento último daquilo que se pratica. Se nossos serviços, nossas tarefas não encontram um sentido positivo no amor, ele se torna algo que escraviza e do qual se deve se libertar. Esquecendo-se que nossos deveres têm um sentido numa dinâmica de vida que leva o cristão à perfeição do amor, se cai num materialismo insensato, condenável. Para o cristão toda sua vida deve ser   a expressão do amor de Deus que é a Vida em plenitude. Compreende-se então que a   prece e a ação não se opõem uma à outra desde que não se viva na mediocridade. Trata-se da oração como uma simples inatividade e a ação como uma mera agitação. Entretanto se a prece e a ação são vividas como uma decorrência da caridade elas se tornam uma maneira única de se estar louvando a Deus e de se estar ao serviço do próximo. Portanto, como Marta se pode fazer muitas coisas, mas superficialmente sem estarem elas impregnadas do verdadeiro amor.

Com efeito, sob o ponto de vista da Fé uma obra caritativa toma todo seu peso e seu valor quando ela não simplesmente é mera obra da vontade humana e não colaboração de nossa liberdade com a obra de Deus.