CIDADE

Abobrinha

Artigo escrito por Dionísio Ladeira


Publicado em: 11/01/2022 às 15:19hs

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Foi com o desfile dos calouros de 1946 que vi, no primeiro sábado depois da Semana Santa, minha primeira Marcha Nico Lopes. Os calouros caracterizados de maneiras as mais engraçadas, em fila dupla, até a Silviano Brandão, onde houve, no desenrolar do papel higiênico, o discurso bem-humorado nas gozações aos ‘meninos da reta’, aos servidores, aos professores, à direção da Escola, a certas figuras da cidade.

Lógico que não vi o baile, no Salão Nobre, quando, à meia-noite, eles entraram, passaram debaixo de um arco florido e foram alforriados, deixando de ser calouros.

Eu os tinha acompanhado naqueles meses do trote:

• cabeça permanentemente raspada, com a proibição de usar chapéu, boné, boina, gorro, enfim qualquer protetor à careca na já fria Viçosa pré-inverno;

• montículo de cabelo amarrado a um barbante preso ao pescoço;

• troca entre nomes e apelidos (nome: Abobrinha; apelido: Fernando Procópio Scarlatelli);

• proibido de namorar (experimentava do nosso fel...);

• só entrava no refeitório de gravata e paletó... ao avesso;

• a cada ‘topada’, saudava o veterano pelo nome honorábil, fazendo continência: “Curuquerê, Augustíssimo Moacir Maestri!”; 

• ao menino que entregava telegrama e nada recebia dos Correios deveria ser dada a gorjeta de Cr$ 1,00.

Cotidianamente, havia a sessão do ‘Tribunal’ no gramado em frente ao alojamento em que eram acolhidas denúncias as mais esdrúxulas contra o calouro, e a sentença era o inexorável banho com roupa e tudo numa torneira que fazia um lamaceiro dos diabos:

“Um banho no Papangu, porque o cariocachiou o ‘s’ ao pronunciar o plural de ‘animal’. Um banho no Pai d ́Égua, porque o patureba se diz patense. Um banho no Abobrinha, porque ele anda sonegando gorjeta ao menino dos telegramas.

“Papangu era o Luiz Noguchi (o primeiro da turma a falecer); Pai d ́Egua era o Lourival Pacheco, tio do Aguinaldo, que puxava o “A turma avança, / enquanto o bicho berra, / é Deus no céu, / ESAV aqui na terra!”; Abobrinha era o Fernando Procópio Scarlatelli, que pelos quatro anos afora até eu entregar-lhe um montão de telegramas em plena madrugada do baile da formatura em 15 de dezembro de 1949 – há 72 anos! – sempre confessou: “Devo e não nego; pago quando puder.”

Cobrei-o publicamente em 1998 em minha coluna aqui no jornal e sonhei que fiz o relato e a contabilidade: não havia telefone; a família era grande e tinha muitas saudades; a namorada morria de amores; havia os amigos... Ele recebia em média três telegramas por semana, quatro semanas por mês, oito meses por ano letivo, quatro anos de curso: 3 x 4 x 8 x 4 = 384 idas e voltas à ESAV, na avenida poeirenta ou barrenta. Cr$ 1,00 vezes isso dava Cr$ 384,00. Sem correção monetária... (Cf. Viçosa é Terna, p. 112)

E a cantilena de sempre: “Devo e não nego; pago quando puder.”

Quando voltei em 2001 para Juiz de Fora, descobri no catálogo telefônico um Scarlatelli morando perto, no Bom Pastor. Era filho do Abobrinha, e este estava ao lado...Papo até longo. Risos pra lá e pra cá. E a frase repetida: “Devo e não nego; pago quando puder.” 

Em 16 de maio de 2011, estando com o Mingula, ficamos rindo dessas coisas. E o antigo veloz ponta-direita da ESAV me botou no telefone com o Abobrinha, que não sabíamos estar ‘nas últimas’. Fui direto:

“Abobrinha, você já está podendo?!...” E ele falando devagarinho: “Devo e não nego...” E morreu!!!

Aí assumi que, verdadeiramente, em termos de $$$, o Abobrinha sou eu...